Endividamento familiar no Brasil alcançou 79,5% em janeiro de 2026, recorde histórico da Peic da CNC.
(Imagem: Marcello Casal jr/Agência Brasil)
O endividamento das famílias brasileiras registrou um marco preocupante em janeiro de 2026. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 79,5% das famílias declararam ter algum tipo de dívida, igualando o recorde de outubro de 2025.
Esse patamar é o mais alto desde o início da série histórica, em 2010, e reflete um aumento em relação aos 78,9% de dezembro de 2025 e aos 76,1% de janeiro do ano anterior. A pesquisa, que ouviu 18 mil famílias em capitais e no Distrito Federal, destaca o cartão de crédito como principal vilão, presente em 85,4% dos casos de endividamento das famílias.
Apesar do avanço no endividamento, há um sinal positivo: a inadimplência caiu para 29,3%, marcando o terceiro mês consecutivo de recuo. Isso significa que menos famílias estão com contas atrasadas, embora o tempo médio de atraso tenha subido para 64,8 dias.
Endividamento atinge mais as famílias de baixa renda
O endividamento das famílias é mais acentuado entre quem ganha até três salários mínimos, fixado em R$ 1.621 desde janeiro. Nessas residências, o índice chega a 82,5%, enquanto nas de renda acima de dez mínimos cai para 68,3%.
Uma em cada cinco famílias, ou 19,5%, afirma comprometer mais da metade da renda com dívidas. Em média, 29,7% do orçamento familiar vai para quitação de contas, com prazo médio de 7,2 meses para zerar as pendências.
- Cartão de crédito: 85,4%
- Carnês: 15,9%
- Crédito pessoal: 12,2%
- Financiamento de casa: 9,6%
- Financiamento de carro: 8,7%
Esses números mostram como o crédito rotativo e parcelado domina o perfil das dívidas no país. A CNC enfatiza que endividamento não é necessariamente ruim, pois impulsiona o consumo e a economia, mas alerta para os riscos quando compromete a capacidade de pagamento.
Inadimplência recua, mas riscos persistem
A queda na inadimplência para 29,3% traz alento, especialmente entre famílias de baixa renda, onde chega a 38,9%. Nas de maior renda, é de 14,9%. Ainda assim, 12,7% das famílias dizem não ter condições de quitar dívidas atrasadas, um índice estável.
Famílias inadimplentes há mais de 90 dias representam 49,2% do total, o maior nível em meses. Esse cenário é agravado pelos juros altos: a Selic está em 15% ao ano, maior patamar desde 2006, influenciando taxas de cartão e cheque especial.
A inflação (IPCA) controlou-se após 13 meses acima da meta de 4,5%, mas o custo do crédito continua apertando orçamentos. A política monetária restritiva desestimula consumo e investimentos, com impacto na geração de empregos.
Projeções indicam alta no endividamento
A CNC projeta que o endividamento das famílias subirá para 80,4% até junho de 2026, enquanto a inadimplência pode cair a 28,9%. A expectativa é de corte na Selic a partir de março, aliviando o crédito no segundo semestre.
O economista-chefe da entidade explica que o desaperto monetário demora a surtir efeito no varejo. “Vai levar tempo para as famílias sentirem juros menores”, avalia, recomendando educação financeira e uso consciente do crédito.
Historicamente, a Peic mostra tendência de alta no endividamento desde 2025, com picos em outubro (79,5%) e agora janeiro. Em agosto de 2025, inadimplência bateu recorde de 30,4%, ilustrando a volatilidade.
Impactos da Selic e dicas para famílias
Com Selic em 15%, empréstimos ficam caros, ampliando o endividamento das famílias. O presidente da CNC, José Roberto Tadros, cobra equilíbrio fiscal para flexibilizar a política monetária, beneficiando consumidores e empresas.
Para lidar com dívidas, especialistas sugerem priorizar pagamentos de juros altos, como cartão rotativo, e renegociar com bancos. Evitar novo crédito enquanto não quitarem pendentes é essencial para não agravar a situação.
O mercado de trabalho, com desemprego baixo mas informalidade alta, reduz previsibilidade de renda. Famílias devem planejar orçamentos, reservando reserva de emergência equivalente a seis meses de despesas.
Esses dados da Peic reforçam a necessidade de políticas que estimulem formalização e controlem inflação sem sacrificar o consumo. O endividamento das famílias cresceu, mas a queda na inadimplência abre janela para recuperação, desde que juros caiam.
A pesquisa continua essencial para monitorar o pulso financeiro do brasileiro, guiando empresários e governos em decisões estratégicas.