Pesquisa aponta que 80% das mulheres temem assédio durante o Carnaval.
(Imagem: © Fernando Frazão/Agência Brasil)
Uma pesquisa nacional revelou um cenário preocupante sobre o assédio no Carnaval. De acordo com levantamento do Instituto Locomotiva, quase metade das mulheres brasileiras (47%) afirma já ter sofrido algum tipo de assédio sexual durante a festa. Além disso, 80% delas dizem ter medo de passar por esse tipo de situação.
O estudo foi realizado com 1.503 pessoas com mais de 18 anos, em todas as regiões do país, compondo uma amostra representativa da população brasileira. Um dos dados que mais chamam atenção é que 86% dos entrevistados reconhecem que o assédio ainda é uma realidade presente na maior festa popular do Brasil.
Para a diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, Maíra Saruê, o problema vai além dos dias de folia.
Segundo ela, a discussão envolve o direito das mulheres de ocupar os espaços públicos com segurança. “Estamos falando do direito ao lazer, do acesso à cidade e da possibilidade de viver plenamente os espaços públicos. Participar ou não do Carnaval é uma decisão individual, mas ter acesso a ele com segurança é um direito fundamental”, afirma.
Assédio no Carnaval muda comportamento das mulheres
O levantamento mostra que o assédio no Carnaval impacta diretamente a forma como muitas mulheres aproveitam a festa. Para se proteger, elas acabam adotando estratégias individuais que limitam sua liberdade.
Entre as medidas mais comuns estão:
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Sair apenas em grupo
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Planejar rotas consideradas mais seguras
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Evitar determinados horários ou locais
Essas precauções, segundo a pesquisadora, revelam como o medo influencia decisões que deveriam ser pautadas apenas pelo desejo de diversão.
Diferenças entre homens e mulheres nas respostas
A pesquisa também mediu o grau de concordância com afirmações relacionadas à violência sexual. Em todos os casos, o índice de concordância foi maior entre os homens.
Os dados mostram que:
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22% dos brasileiros acreditam que quem está no Carnaval sozinho “quer ficar com alguém” (28% entre homens e 16% entre mulheres);
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18% consideram que a roupa de uma mulher pode indicar intenção de beijar (23% entre homens e 13% entre mulheres);
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17% concordam com a frase “no Carnaval ninguém é de ninguém” (20% entre homens e 14% entre mulheres).
Outro dado preocupante é que 10% dos entrevistados — e 12% dos homens — consideram aceitável que um homem “roube” um beijo de uma mulher alcoolizada, prática que configura violência sexual.
Para Maíra Saruê, esses pensamentos ajudam a perpetuar o assédio no Carnaval e podem afastar mulheres da festa. “O medo é tão concreto, seja por experiência própria ou de conhecidas, que muitas passam a acreditar que o Carnaval não é um espaço para todas”, destaca.
Responsabilidade coletiva
Apesar dos números alarmantes, o estudo também aponta que a maioria da população reconhece a necessidade de enfrentar o problema. Ao todo, 86% dos entrevistados afirmam que combater a violência é responsabilidade de toda a sociedade — índice que sobe para 89% entre mulheres e fica em 82% entre homens.
Além disso, 96% consideram importantes as campanhas de combate ao assédio realizadas durante o período carnavalesco.
Para a diretora do instituto, a mudança depende de um esforço coletivo. “Não é um problema das mulheres, é um problema social. É preciso transformar comportamentos para que o Carnaval seja um espaço de respeito e liberdade para todos”, conclui.