Analistas preveem cortes a partir de março em meio a desaceleração econômica.
(Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou, no início da noite desta quarta-feira (28), a manutenção da taxa Selic em 15% ao ano. Essa é a quinta decisão consecutiva sem alteração, confirmando as expectativas do mercado financeiro em um cenário de inflação persistente, apesar da desaceleração geral dos preços.
A reunião marcou a primeira do ano e ocorreu com quórum reduzido. Os diretores Renato Gomes, de Organização do Sistema Financeiro, e Paulo Pichetti, de Política Econômica, tiveram seus mandatos expirados no fim de 2025. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve indicar substitutos apenas em fevereiro, após a volta do Congresso Nacional.
No comunicado, o Copom destacou a elevada incerteza econômica e a necessidade de manter a taxa Selic elevada por tempo prolongado para ancorar a inflação na meta contínua de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Inflação desacelera, mas serviços pressionam
O IPCA-15, prévia da inflação oficial, registrou 0,2% em outubro e acumula 4,5% em 12 meses, tocando o teto da meta. Economistas apontam que preços de serviços, como salão de beleza e educação, continuam resistentes, mesmo com a economia em ritmo mais lento.
O Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com analistas, estima inflação de 4,4% para 2025, ligeiramente abaixo do limite superior de 4,5%. Para 2026, a projeção é de 4,2%, ainda acima da meta central, justificando a cautela do Copom.
A taxa Selic em 15% é o maior patamar desde julho de 2006, quando chegou a 15,25%. Desde setembro de 2024, houve sete altas consecutivas, seguidas de estabilidade nas últimas quatro reuniões.
Expectativas do mercado para cortes futuros
Embora a manutenção tenha sido unânime nas projeções – 27 de 29 economistas consultados pela Bloomberg esperavam isso –, o consenso aponta para início de ciclo de redução em março. Instituições como XP, Anbima e BTG preveem Selic em torno de 12,5% ao fim de 2026.
- XP Investimentos: Cortes de 0,50 pp a partir de março, chegando a 12,5% em dezembro.
- Anbima: Redução para 14,75% em março e 12,5% no fim do ano.
- Boletim Focus: Selic em 12,13% para 2026, com inflação em queda gradual.
A queda recente do dólar para R$ 5,20 elevou ligeiramente as chances de corte mais cedo, mas o Copom priorizou sinais consolidados de desinflação, como menor atividade econômica e hiato do produto positivo.
Como a taxa Selic impacta o dia a dia
A taxa Selic serve de referência para toda a economia brasileira. Ela influencia empréstimos, financiamentos e investimentos, atuando como freio na demanda aquecida para conter a inflação.
Juros altos encarecem o crédito, estimulam a poupança e desaceleram o consumo, afetando especialmente famílias de baixa renda. Por outro lado, reduções futuras podem baratear financiamentos de imóveis e veículos, impulsionando a produção.
O Banco Central opera diariamente no mercado aberto, comprando e vendendo títulos públicos para manter a taxa próxima do definido pelo Copom. O ciclo de reuniões ocorre a cada 45 dias, com análises técnicas no primeiro dia e deliberação no segundo.
Meta contínua e desafios à frente
Desde janeiro de 2025, vigora o sistema de meta contínua, apurando a inflação mês a mês em 12 meses. Em janeiro de 2026, compara-se o acumulado desde fevereiro de 2025 com a meta de 3%.
O Relatório de Política Monetária de dezembro previa IPCA em 3,5% para 2026, mas atualizações são esperadas em março. Analistas como Gustavo Sung, da Suno Research, defendem prudência para garantir ancoragem das expectativas inflacionárias.
Sérgio Samuel dos Santos, do Sistema Ailos, reforça: a economia cresce acima do potencial, com desemprego em mínimas históricas, demandando taxa Selic alta. A decisão de hoje sinaliza continuidade técnica, independentemente de pressões políticas.
Investidores aguardam a ata da reunião, a ser divulgada na próxima semana, para detalhes sobre o tom do comunicado. Qualquer sinalização mais dovish pode impulsionar a bolsa e o câmbio.
Em resumo, a manutenção da Selic reflete o equilíbrio delicado entre controle inflacionário e crescimento. Com o primeiro corte no horizonte, o foco agora é na evolução dos indicadores econômicos nos próximos meses.