Turnê Sonora Brasil 2026 promove música afro-indígena em 15 estados.
(Imagem: Lucas Aldi/Divulgação)
O Sonora Brasil anuncia sua 28ª edição com uma turnê nacional que percorre 15 estados brasileiros, levando artistas afro-indígenas em apresentações inéditas de junho a dezembro deste ano.
O projeto do Sesc valoriza expressões musicais que unem raízes ancestrais a linguagens contemporâneas, promovendo shows acústicos em unidades do Sesc e espaços culturais parceiros por todo o país.
Raízes que ressoam no presente
A programação abre espaço para artistas que transformam tradições em atos de resistência cultural, conectando territórios indígenas e afrodescendentes à cena musical atual.
Gean Ramos Pankararu, do povo Pankararu de Pernambuco, lidera essa ponte entre mundos. Nascido em 1980 na aldeia indígena do sertão pernambucano, ele aprendeu violão aos oito anos e construiu carreira em São Paulo, misturando toré, baião, samba e bossa nova.
Com seis álbuns lançados, prêmios nacionais e indicações internacionais como o Grammy Latino, Gean representa a música indígena contemporânea. Sua trajetória inclui vitórias em festivais e reconhecimento no Indigenous Music Awards, no Canadá.
O artista vê a música como expressão espiritual: ela parte da terra, da natureza e das memórias coletivas, carregando histórias de migração e luta pela visibilidade indígena.
Mulheres do Tapajós no carimbó
As Suraras do Tapajós, do Pará, surgem como pioneiras: primeiro grupo de carimbó formado só por mulheres indígenas do Brasil.
Formadas em 2018 às margens do rio Tapajós, elas reúnem etnias diversas em canções autorais que celebram a força feminina, a floresta e a ancestralidade. O carimbó, elevado a Patrimônio Cultural Imaterial em 2014, ganha nova potência em suas mãos.
Com EP homônimo e o álbum "Kiribasáwa Yúri Yí-Itá (A Força Que Vem das Águas)", de 2021, o grupo já compartilhou palcos com Dona Onete e Gaby Amarantos, ampliando o alcance paraense para além das comunidades ribeirinhas.
Ritmos eletrônicos ancestrais
Cabokaji, da Bahia, inova ao fundir rap, pop, eletrônica e percussões indígenas-afro em performances rituais que envolvem corpo e espiritualidade.
Fundado em 2019 por Caboclo de Cobre, ISSA, Ejigbo e Mayale Pitanga, o grupo homenageia povos como Xukuru-Kariri e Fulni-ô, com letras em línguas originárias sobre amor, territorialidade e reparação histórica.
Suas apresentações criam pontes entre vielas urbanas e trilhas ancestrais, transformando elementos rituais em experiências sonoras imersivas que questionam narrativas dominantes.
Diálogos transatlânticos
O Nderé Oblé conecta artistas do Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Costa do Marfim, tecendo ancestralidades afro e indígena por meio de música, poesia e movimento corporal.
A proposta explora crenças, territórios e modos de vida compartilhados, revelando as matrizes fundantes da cultura brasileira em um espetáculo de múltiplas vozes.
Legado do projeto Sonora Brasil
Iniciado em 1998, o Sonora Brasil já realizou 6.098 concertos para 750 mil pessoas em mais de 150 cidades, com 431 músicos envolvidos ao longo de suas edições.
Leonardo Minervini, gerente interino de Cultura do Sesc, ressalta a adaptabilidade do projeto aos contextos regionais, garantindo diversidade e formação de público.
Na edição 2024-2025, sob o eixo "Encontros, Tempos e Territórios", dez formações circularam pelo país, resultando em documentário gratuito no Sesc Digital. Agora, o foco afro-indígena amplia o alcance para novas gerações.
Impacto além dos palcos
Essa turnê reforça a música indígena como a expressão mais antiga do Brasil, impulsionando artistas originários desde os anos 2000 em um cenário antes dominado por outras narrativas.
Gean Ramos destaca a importância geracional: "Consolidamos nomes e histórias de resistência, plantando consciência para o futuro". Os shows, de 30 a 40 por artista, começam em Santarém (PA) e espalham-se nacionalmente.
- 15 estados atendidos, com ênfase em regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
- Apresentações gratuitas ou acessíveis, priorizando autenticidade acústica.
- Valorização do patrimônio vivo afro-indígena como base identitária.
- Enfrentamento ao apagamento histórico via reinvenção contemporânea.
- Formação de plateia diversa, de centros urbanos a comunidades remotas.
Mais que entretenimento, a iniciativa educa sobre cosmovisões, lutas por terra e reparação, fortalecendo a pluralidade cultural brasileira em tempos de polarizações.
Em um país marcado por 305 povos indígenas e herança africana profunda, o Sonora Brasil age como fiador de memórias vivas, garantindo que vozes marginais ganhem centros de escuta.
Os shows promovem não só diversidade sonora, mas coesão social, convidando o público a reconhecer-se nas múltiplas camadas da nação. Agendas detalhadas estão nos portais regionais do Sesc.
Essa edição consolida o projeto como referência na preservação criativa, provando que tradições florescem quando ganham asas contemporâneas. Prepare-se para uma viagem sonora que redefine o Brasil sonoro.