Representantes diplomáticos e especialistas em saúde discutem os termos do Tratado de Pandemias na sede da OMS, em Genebra.
(Imagem: gerado por IA)
O mundo está diante de uma encruzilhada que definirá a rapidez da resposta global à próxima crise sanitária. Nesta segunda-feira (27), a Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciou em Genebra uma das semanas mais tensas e fundamentais de sua história recente. O objetivo é destravar o impasse sobre o sistema PABS, uma sigla técnica que esconde um dilema humano profundo: quem recebe medicamentos e vacinas primeiro quando o tempo é o maior inimigo?
Após mais de três anos de debates exaustivos, a comunidade internacional tenta agora consolidar a "pedra angular" do Tratado de Pandemias. A ideia é criar um mecanismo obrigatório para que países compartilhem dados genéticos de vírus e bactérias em tempo real, recebendo, em troca, a garantia de que não serão deixados para trás na fila de suprimentos médicos.
O que muda na prática com o sistema PABS
Na prática, o sistema Acesso a Patógenos e Compartilhamento de Benefícios (PABS) quer evitar o cenário de "cada um por si" visto em 2020. A proposta atual exige que laboratórios farmacêuticos reservem 20% de sua produção de vacinas e tratamentos para a OMS em caso de emergência internacional. Metade desse volume seria doado e a outra parte vendida a preços acessíveis para nações em desenvolvimento.
Mas o impacto vai além de números frios. Para países como o Brasil e nações africanas, isso representa o direito de não apenas fornecer amostras de vírus para pesquisa, mas de ter acesso soberano aos resultados científicos derivados delas. "O mundo não pode deixar esta oportunidade passar e correr o risco de não estar preparado para a próxima pandemia", alertou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.
O que está por trás do impasse entre as nações
O nó górdio da negociação reside na desconfiança mútua. De um lado, países desenvolvidos e a indústria farmacêutica temem que regras rígidas demais sufoquem a inovação ou reduzam a rentabilidade a longo prazo. Do outro, o "Sul Global" exige transferências tecnológicas que vão além dos períodos de crise. A situação se tornou ainda mais complexa com a recente retirada dos Estados Unidos da organização por ordem de Donald Trump, o que altera o equilíbrio de forças na mesa.
E é aqui que está o ponto central: a transparência. Mais de 100 ONGs denunciaram que alguns países ricos defendem o acesso anônimo aos bancos de dados de patógenos. Segundo especialistas, isso permitiria que empresas explorassem recursos genéticos de países pobres sem qualquer compromisso jurídico de retorno, perpetuando um ciclo de exploração científica.
O desfecho desta semana servirá como termômetro para a Assembleia Geral da OMS em maio. Se houver acordo, teremos pela primeira vez um protocolo global de solidariedade sanitária. Se falhar, o planeta continuará à mercê de uma cooperação voluntária que, historicamente, se provou insuficiente diante do medo e do lucro.