Integração de dados entre polícias e operadoras é aposta para frear mercado de aparelhos roubados no Brasil.
(Imagem: gerado por IA)
Caminhar pelas ruas das grandes cidades brasileiras com o celular à mão tornou-se um ato de coragem para muitos, especificamente para 60% da população, que admite evitar o uso do aparelho em público por medo de assaltos. Com mais de 850 mil aparelhos furtados ou roubados apenas em 2024, o governo federal decidiu que a resposta tecnológica dada até agora não foi suficiente e prepara um cerco mais rígido contra o mercado ilegal de dispositivos.
A nova etapa do programa de combate ao furto e roubo de celulares, articulada pelo Ministério da Justiça, pretende resolver o que especialistas apontam como o maior gargalo da segurança pública: a falta de diálogo entre os sistemas das polícias estaduais. O objetivo é criar uma rede nacional que cruze dados de boletins de ocorrência com o IMEI (a identidade única de cada aparelho), permitindo que o rastreio e o bloqueio ocorram em tempo recorde.
Na prática, isso muda mais do que parece. Além de inutilizar o aparelho para o criminoso, o governo quer atacar quem alimenta o ciclo. O plano prevê que pessoas que comprarem celulares de origem ilícita recebam notificações diretas em seus dispositivos para devolvê-los às autoridades. Essa estratégia visa desmantelar o mercado de receptação, tornando a posse de um aparelho roubado um risco constante para o comprador.
O que muda na prática com o rastreamento avançado
A inspiração para essa nova ofensiva vem de uma experiência concreta que já deu resultados. O estado do Piauí tornou-se a vitrine do projeto ao registrar uma queda de quase 30% nos roubos após integrar o banco de dados de IMEIs à atuação investigativa da Polícia Civil. Lá, a proporção de recuperação é a maior do país: um aparelho devolvido para cada 2,7 roubados, uma eficiência muito superior à média nacional.
Mas o impacto vai além da tecnologia. O governo busca uma cooperação inédita entre o Ministério das Comunicações, a Anatel e as operadoras de telefonia. A ideia é que, ao registrar o crime, o bloqueio não seja apenas do chip, mas de toda a funcionalidade do aparelho em nível sistêmico, dificultando que o dispositivo seja formatado e revendido como novo.
Por que a segurança pública virou o ponto central para o Planalto
E é aqui que está o ponto central: a popularidade do governo está diretamente ligada à sensação de segurança nas ruas. Pesquisas internas do Palácio do Planalto revelam que o roubo de celular é a preocupação número um do brasileiro no quesito violência urbana. O medo atinge todas as classes sociais, já que o aparelho deixou de ser um luxo para se tornar uma ferramenta indispensável de trabalho e lazer.
Com as eleições se aproximando, a gestão Lula tenta neutralizar críticas da oposição e se afastar de narrativas que associam a esquerda a uma postura leniente com crimes de rua. O movimento inclui até uma mudança no discurso presidencial, que passará a adotar tons mais severos contra a criminalidade, buscando conectar-se com o eleitor de centro que exige respostas rápidas e punição efetiva.
O sucesso dessa nova fase dependerá, fundamentalmente, da capacidade de Brasília em convencer os governadores a compartilharem seus dados em tempo real. Se a integração funcionar, o celular roubado deixará de ser um ativo valioso para se tornar um rastreador indesejado nas mãos do crime organizado.