Ilha chinesa.
(Imagem: Imagem gerada por IA)
Enquanto diversas economias reforçam barreiras comerciais e revisam cadeias globais de suprimento, a China segue um caminho aparentemente contraditório.
Em meio a um cenário de crescente protecionismo, o governo chinês oficializou a ilha de Hainan como o maior porto de livre comércio do mundo. Localizada no sul do país, a província passa a ocupar um papel central na estratégia econômica de Pequim, funcionando como uma vitrine de abertura em plena era Xi Jinping.
Um porto livre em escala inédita
Com área cerca de 50 vezes maior que Singapura, Hainan se destaca não apenas pelo discurso, mas pela dimensão do projeto. O novo status elimina tarifas de importação sobre uma ampla gama de produtos e reduz impostos corporativos e sobre a renda, criando um ambiente altamente competitivo para empresas estrangeiras e chinesas.
O objetivo declarado é transformar a ilha em um polo de comércio, serviços, tecnologia e turismo internacional, capaz de atrair capital externo em um momento de tensões geopolíticas e desaceleração econômica global.
A lógica da “fronteira interna”
O modelo adotado por Pequim funciona como uma espécie de fronteira econômica dentro do próprio país. Mercadorias estrangeiras podem entrar em Hainan com alíquota zero, mas há uma condição clara: para que esses produtos cheguem ao restante do território chinês sem tarifas, é necessário que passem por algum tipo de processamento local.
A regra exige que ao menos 30% de valor seja agregado na ilha. Na prática, isso estimula a instalação de fábricas, centros de montagem, pesquisa ou design em Hainan, criando empregos e fortalecendo cadeias produtivas locais antes que os bens sejam distribuídos ao mercado continental.
Um atalho para o mercado chinês
Essa engenharia tributária já desperta o interesse de investidores globais.
Para empresas estrangeiras, Hainan surge como um possível atalho para acessar o gigantesco mercado consumidor chinês com menor carga fiscal.
O modelo também favorece setores como tecnologia, farmacêutico, bens de consumo e logística, que podem se beneficiar do regime especial.
Além disso, a iniciativa reforça a ambição chinesa de se posicionar como um hub econômico alternativo em um mundo cada vez mais fragmentado por disputas comerciais.
Abertura real ou vitrine política?
Apesar do entusiasmo oficial, analistas adotam um tom mais cauteloso. Muitos veem Hainan como um experimento controlado, cuidadosamente delimitado para não comprometer o modelo econômico predominante no restante do país. A abertura, nesse sentido, seria seletiva e reversível.
Sob a liderança de Xi Jinping, a China tem priorizado temas como segurança nacional, controle de dados e autossuficiência tecnológica. Esse foco levanta dúvidas sobre até que ponto Hainan representa uma mudança estrutural ou apenas uma estratégia de relações públicas voltada ao público internacional.
Independentemente das críticas, Hainan se consolida como um laboratório econômico. O sucesso — ou fracasso — da ilha pode influenciar futuras políticas comerciais chinesas e servir de termômetro para o grau de flexibilidade que Pequim está disposta a adotar em um cenário global cada vez mais tenso.