Nova reserva no Norte de Minas e ampliações no Pantanal somam 148 mil hectares protegidos.
(Imagem: Palê Zuppani/ICMbio)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou decretos criando uma reserva de desenvolvimento sustentável no Cerrado de Minas Gerais e ampliando unidades de conservação no Pantanal do Mato Grosso em 148 mil hectares.
O anúncio ocorreu durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias, sediada em Campo Grande (MS). Geridas pelo ICMBio, essas ações protegem ecossistemas vitais diante de secas intensas e perda de habitats, conciliando conservação ambiental com direitos de comunidades tradicionais.
Expansões decisivas no coração do Pantanal
A Estação Ecológica do Taiamã, em Cáceres (MT), saltou de 11,5 mil para 68,5 mil hectares com a adição de 57 mil hectares de áreas inundáveis. Pesquisadores da Unemat defendiam há anos essa ampliação para garantir corredores ecológicos a onças-pintadas e 131 espécies de peixes, que representam quase metade da ictiofauna pantaneira.
Reconhecida como Sítio Ramsar desde 2018, a unidade abriga aves migratórias e grandes predadores. A região dos rios Paraguai e São Lourenço ganha agora proteção reforçada contra queimadas e fragmentação, mantendo o equilíbrio do pulso hidrológico essencial ao bioma.
O Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, localizado em Poconé, incorporou 47,2 mil hectares, alcançando 183,1 mil hectares totais. Rios como Cuiabá e São Lourenço delimitam o parque, que abriga tamanduá-bandeira, ariranha, tatu-canastra e cervo-do-pantanal, espécies icônicas ameaçadas pela expansão agropecuária.
Reserva dos Córregos: vitórias dos geraizeiros mineiros
A RDS Córregos dos Vales do Norte de Minas Gerais abrange 40,8 mil hectares nos municípios de Riacho dos Machados, Rio Pardo de Minas e Serranópolis de Minas. A unidade protege nascentes dos córregos Tamanduá, Poções e Vacaria, formando mosaico com o Parque Estadual Serra Nova e áreas próximas a Grão Mogol.
Os geraizeiros, povos tradicionais que habitam os chapadões do Cerrado desde o século XIX, protagonizaram a luta pela criação da reserva. Essas comunidades cultivam roças diversificadas em veredas e enfrentam cercos de monoculturas de eucalipto, que secam nascentes e inviabilizam sua subsistência.
Mauro Pires, presidente do ICMBio, reconhece o conhecimento ancestral geraizeiro como base para a gestão sustentável. A reserva assegura direitos territoriais, promove agricultura familiar e combate a insegurança hídrica em uma das regiões mais secas de Minas Gerais.
Biomas em alerta: Cerrado e Pantanal sob pressão
O Pantanal sofre com secas recordes, queimadas históricas e alterações no regime de cheias devido ao aquecimento global. O fogo de 2020 destruiu 30% da vegetação, afetando cadeias tróficas de jacarés, capivaras e garças. A ampliação das unidades corrige déficits de proteção em áreas privadas degradadas.
Segundo bioma mais ameaçado do Brasil, o Cerrado perde 1,5 bilhão de árvores por ano para soja e pastagens. Suas nascentes alimentam 40% dos mananciais brasileiros, mas só 8,5% do território está protegido. A nova reserva mineira eleva essa proporção e conecta fragmentos ecológicos cruciais.
- Taiamã ampliada: Onças-pescadoras, 131 peixes (48% do Pantanal), aves transfronteiriças.
- Pantanal Matogrossense: Ariranha, gato-maracajá, regulação hidrológica regional.
- Córregos dos Vales: Geraizeiros, nascentes dos rios Jequitinhonha e Pardo, mosaico de UCs.
Estratégias nacionais e compromissos globais
Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, vincula as criações à meta de 30% de território protegido até 2030. Os decretos alinham-se à COP15, que protege rotas migratórias de garças, tuiuiús e peixes que transitam entre Pantanal, Amazônia e Chaco paraguaio.
O ICMBio prevê R$ 80 milhões em investimentos para Taiamã, incluindo brigadas de fogo, monitoramento por câmeras e pesquisa científica. Comunidades geraizeiras terão assistência técnica para manejo agroecológico, fortalecendo a economia local com mel, frutos e artesanato.
Claumir Muniz, da Unemat, e Ernandes Sobreira, do ICMBio, calculam ganhos genéticos para populações isoladas de fauna. A conectividade territorial reduz endogamia e eleva a resiliência contra eventos climáticos extremos, como as secas de 2023-2025.
Legado para gerações e desafios pendentes
Essas unidades somam forças contra o desmatamento ilegal, a grilagem e as hidrelétricas planejadas. No Pantanal, elas estabilizam o fluxo de água para o rio Paraguai, beneficiando Paraguai e Bolívia. No Cerrado, preservam aquíferos que abastecem o São Francisco.
O Brasil reduzirá emissões de carbono com o sequestro natural desses ecossistemas. Geraizeiros e pantaneiros, guardiões históricos, ganham segurança jurídica para transmitir saberes milenares. Contudo, fiscalização contínua e políticas anticrise climática serão indispensáveis.
A COP15 consolida o protagonismo brasileiro na conservação transfronteiriça. Com 148 mil hectares a mais, o país avança na reparação ambiental, mas a batalha pelo equilíbrio entre natureza e sociedade exige vigilância coletiva permanente.