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Ciência

Pesquisa revela que áreas úmidas do Cerrado guardam estoque profundo de carbono e ganham peso no debate climático

13 mar 2026 - 08h38 Joice Gomes   atualizado às 08h40
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Pesquisa revela que áreas úmidas do Cerrado guardam estoque profundo de carbono e ganham peso no debate climático Estoque de carbono no Cerrado ganha destaque após estudo mostrar alta concentração em áreas úmidas e risco climático com a degradação. (Imagem: Rafael Oliveira/Unicamp)

Um novo levantamento científico colocou o carbono no Cerrado no centro das discussões ambientais ao indicar que áreas úmidas do bioma podem guardar um volume muito superior ao que se estimava até agora. A pesquisa mostra que veredas e campos úmidos concentram grandes quantidades de matéria orgânica no subsolo, o que amplia a relevância estratégica do bioma no equilíbrio climático e no debate sobre conservação.

A descoberta muda a forma de interpretar a contribuição do Cerrado para o armazenamento de gases de efeito estufa. Durante muito tempo, a atenção se concentrou sobretudo nas florestas densas e na biomassa visível, mas o estudo aponta que parte importante do carbono no Cerrado está escondida em camadas profundas do solo, preservada por milhares de anos e altamente sensível a alterações ambientais.

Esse novo olhar é relevante porque reposiciona um bioma que, embora essencial para a biodiversidade, para os recursos hídricos e para a estabilidade climática, nem sempre recebeu o mesmo destaque dado a outros ecossistemas brasileiros. Ao revelar a dimensão subterrânea do carbono no Cerrado, o estudo abre caminho para revisões em diagnósticos ambientais, políticas de preservação e estratégias de enfrentamento da crise climática.

Estoque oculto no subsolo

O trabalho científico analisou solos de áreas úmidas em profundidades de até quatro metros, patamar bem acima do que costumava ser investigado em levantamentos anteriores. Esse detalhe metodológico foi decisivo para mostrar que o carbono no Cerrado vinha sendo subestimado, já que boa parte do material orgânico se encontra abaixo das camadas mais superficiais normalmente avaliadas.

Segundo os resultados, algumas dessas áreas podem armazenar cerca de 1.200 toneladas métricas por hectare. A densidade observada coloca o carbono no Cerrado em um patamar de destaque no cenário ambiental, especialmente porque o estudo chama atenção para comparações em que esse volume supera com folga médias atribuídas a outras formações vegetais analisadas pelos pesquisadores.

Além da quantidade, a idade desse material reforça a gravidade de qualquer processo de degradação. Parte do carbono identificado tem origem muito antiga, com média de cerca de 11 mil anos e registros superiores a 20 mil anos, o que indica uma formação lenta, contínua e praticamente insubstituível em escala de curto prazo.

  • As coletas foram feitas em veredas e campos úmidos do Cerrado.
  • As amostras alcançaram profundidades de até quatro metros.
  • O estoque estimado chegou a cerca de 1.200 toneladas métricas por hectare.
  • Parte do material orgânico analisado tem mais de 20 mil anos.

Risco cresce com a perda de umidade

Os dados também mostram que esse reservatório natural pode se transformar em fonte de emissões caso o ambiente seja alterado. Quando há ressecamento do solo, a decomposição da matéria orgânica acelera e o carbono no Cerrado deixa de permanecer retido, passando a ser liberado na forma de gases como dióxido de carbono e metano.

Esse processo se torna mais preocupante nas épocas secas, quando as condições de umidade se enfraquecem e favorecem a emissão de gases de efeito estufa. O estudo aponta que uma parcela majoritária das emissões anuais dessas áreas ocorre justamente durante a estação seca, o que reforça a ligação entre desequilíbrio hídrico e risco climático.

Na prática, isso significa que o carbono no Cerrado precisa ser tratado como um ativo ambiental vulnerável. Se o solo perde água de forma recorrente ou intensa, o que levou milênios para ser acumulado pode começar a retornar à atmosfera, agravando o aquecimento global e enfraquecendo a capacidade natural de regulação do bioma.

Pressão humana amplia a ameaça

Os pesquisadores associam a perda desse equilíbrio à expansão agropecuária, à drenagem de áreas úmidas e à retirada de água para irrigação. Essas intervenções alteram o regime hídrico dos solos e aumentam o risco de degradação do carbono no Cerrado, especialmente em ambientes que dependem da manutenção da umidade para conservar o material orgânico em segurança.

O problema ganha uma dimensão ainda maior porque o Cerrado exerce papel central na dinâmica hídrica do país. O bioma ocupa cerca de 26% do território nacional, abriga nascentes que alimentam grandes bacias hidrográficas e reúne uma biodiversidade reconhecida internacionalmente, o que faz da proteção dessas áreas uma questão ambiental com reflexos amplos.

O estudo ainda alerta que uma parcela significativa dessas áreas úmidas já pode ter sofrido algum nível de degradação. Nesse contexto, preservar o carbono no Cerrado deixa de ser apenas uma pauta científica e passa a envolver ordenamento territorial, monitoramento ambiental e decisões públicas capazes de reduzir perdas que podem se tornar irreversíveis.

  • A drenagem dos solos favorece a decomposição da matéria orgânica.
  • A retirada de água para irrigação pode intensificar o ressecamento das áreas úmidas.
  • A degradação afeta o clima, a biodiversidade e a segurança hídrica.
  • Pesquisadores indicam que até metade dessas áreas pode já ter sido impactada.

Nova leitura sobre preservação

A principal implicação do estudo é a necessidade de ampliar a forma como o país enxerga o Cerrado. A nova evidência sugere que o carbono no Cerrado deve entrar com mais força nos cálculos sobre emissões, conservação e planejamento climático, já que o estoque subterrâneo revelou uma importância maior do que se imaginava.

Isso pode influenciar debates sobre proteção de veredas, campos úmidos e outras áreas sensíveis do bioma. Ao demonstrar que esses ambientes funcionam como reservatórios antigos e volumosos, a pesquisa fortalece a defesa de políticas mais específicas para evitar a perda de um patrimônio ecológico acumulado ao longo de milhares de anos.

Mais do que ampliar o conhecimento científico, o resultado ajuda a redefinir prioridades ambientais. O carbono no Cerrado passa a ser visto não apenas como um dado técnico de pesquisa, mas como um elemento central para compreender o futuro climático, hídrico e ecológico do bioma em um cenário de crescente pressão sobre seus recursos naturais.

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