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Sáb, 13 de Junho
Carnaval

Portela leva à Sapucaí em 2026 o mistério do Príncipe Custódio, figura central do Batuque afro-gaúcho que uniu nações africanas no Rio Grande do Sul

04 fev 2026 - 13h00 Joice Gomes
Portela leva à Sapucaí em 2026 o mistério do Príncipe Custódio, figura central do Batuque afro-gaúcho que uniu nações africanas no Rio Grande do Sul Portela exalta Príncipe Custódio, personagem central do culto afro no Rio Grande do Sul, em enredo para o Carnaval 2026. (Imagem: Portela/Divulgação)

A Majestade do Samba, G.R.E.S. Portela, anunciou um enredo poderoso para o Carnaval 2026. A escola abrirá os desfiles do Grupo Especial no domingo, 15 de fevereiro, com uma homenagem à negritude gaúcha. O tema mergulha na trajetória de Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, o personagem central de culto afro do Rio Grande do Sul.

Originário do Benin, na África, Custódio chegou ao Brasil no século 19 como um príncipe coroado, não como escravizado. Ele passou pela Bahia e pelo Rio de Janeiro até se estabelecer em Porto Alegre. Lá, tornou-se líder espiritual, curandeiro e organizador do Batuque, religião de matriz africana mais forte no Sul.

Enredo une Bará e Negrinho do Pastoreio

O título completo é “O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. A narrativa fantástica é guiada pelo orixá Bará e pelo Negrinho do Pastoreio, ícone gaúcho. Eles revelam a herança de Custódio, dissipando o esquecimento sobre a negritude gaúcha.

O carnavalesco André Rodrigues assina o enredo, após sucesso em 2025. A sinopse destaca como Custódio uniu nações africanas como Oyó, Jeje, Nagô e outras no xirê do Batuque. Seus rituais no Mercado Público de Porto Alegre e na Igreja do Rosário simbolizam a ocupação da cidade pela cultura afro.

A Portela rompe com a visão centralizada do eixo Rio-Bahia. O Rio Grande do Sul, segundo o Censo 2022, lidera em praticantes de religiões afro-brasileiras. Essa força persiste em tambores de sopapo, maçambiques e congadas.

Príncipe Custódio: do Benin aos pampas

Nascido Osuanlele Okizieru, Custódio descendia da realeza beninense. Perseguido por lutar pela liberdade, consultou o Ifá e rumou ao Brasil. Conhecido como Príncipe dos Mendigos, curandeiro e macumbeiro, recebia elites em casa enquanto organizava terreiros no quintal.

  • Chegou a Porto Alegre por volta de 1901, temido e respeitado.
  • Estruturou o Batuque, unindo povos africanos despedaçados pela escravidão.
  • Inspirou resistência negra, de quilombos a movimentos atuais.
  • Viveu de 1828 a 1932, deixando legado em oralidade e rituais.

Sua influência vai além: refez o “trono de Zumbi” e abriu caminhos para o Dia da Consciência Negra. A Portela o mitifica como fundador da identidade afro-gaúcha, ecoando em poemas e documentários.

Sinopse detalha saga de resistência

A sinopse oficial descreve o prólogo com Bará convocando o Negrinho: “Corre, Negrinho… voa, Negrinho”. O menino encontra a coroa perdida de Custódio, narrando sua jornada. Do Benin aos pampas, Custódio assenta a África no Sul, com rezas como “E Nan Tṣẹ E Nan Tṣẹ”, oração para Sakpatá.

O desfile deve mostrar xirês com Ogum, Oyá, Xangô e outros orixás do Batuque. Elementos visuais conectarão África aos horizontes gaúchos, com estandartes de Onira e comanches. A escola posiciona Custódio como farol nacional contra o racismo.

Dona Madalena, presidente de honra, e intérprete Zé Paulo Sierra comandam. O samba-enredo, de Valtinho Botafogo e parceiros, canta: “Alumia o cruzeiro… chave de encruzilhada”. Escolhido em disputa acirrada, promete emocionar a Sapucaí.

Impacto cultural e histórico

O enredo corrige invisibilidades. O RS tem história negra rica, de charqueadas a estâncias, com negros salgando carne e resistindo em quilombos. Autores citam Oliveira Silveira: “Terra de estância, charqueada grande, negros salgando”.

Documentários como “Custódio, o Príncipe de Porto Alegre”, do governo gaúcho, e livros de Rudinei Borba reforçam a pesquisa. A Portela, pioneira contra o racismo desde 1926, usa o Carnaval para refundar memórias.

Com Júnior Escafura na presidência, Bianca Monteiro como rainha e Mestre Vitinho na bateria, a Águia altaneira voa alto. O personagem central de culto afro ganha asas para o Brasil inteiro, provando que a negritude sulista pulsa forte.

Essa trama não só entretém, mas educa. Em tempos de debates sobre identidade, a Portela afirma: o negro gaúcho existe e resiste. Prepare-se para um desfile de profundidade e emoção na Marquês de Sapucaí.

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