A Paraíso do Tuiuti prepara desfile no Carnaval 2026 com o enredo Lonã Ifá Lukumi, que revela semelhanças da diáspora africana no Brasil.
(Imagem: Paraíso do Tuiuti/Divulgação)
A Paraíso do Tuiuti, escola de samba tradicional do Rio de Janeiro, anunciou seu enredo para o Carnaval 2026: Lonã Ifá Lukumi. O tema mergulha nas conexões da diáspora africana entre Brasil e Cuba, enfatizando uma vertente religiosa de matriz africana conhecida como Ifá Lucumí.
Desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, o enredo promete transformar a Sapucaí em um grande terreiro, celebrando ancestralidade, resistência e fé negra. A escola, conhecida por desfiles politizados, será a primeira a cruzar a avenida na terça-feira de folia.
Origens do Ifá Lucumí
O Ifá Lucumí representa um sistema oracular iorubá que se enraizou em Cuba durante o período colonial, resistindo à escravidão e evoluindo na tradição religiosa afro-cubana. No Brasil, essa linhagem espiritual ganha visibilidade recente, conectando terreiros e comunidades através de rituais compartilhados.
Lonã, que significa "caminho" em língua lucumí, simboliza a trajetória da diáspora africana, do continente materno aos mares do Atlântico, florescendo em ilhas caribenhas e terras brasileiras. O enredo destaca como o Ifá, guiado por Orunmilá, revela destinos e remove espinhos da existência.
- O babalaô, sacerdote do Ifá, interpreta odus com ikins e opelê, orientando fiéis em ebós de prosperidade.
- Elementos como Eleguá, Ogum e Olokun aparecem como forças protetoras na narrativa carnavalesca.
- A tradição lucumí une música, dança e tambores, ecoando nas alas da escola.
Conexões culturais Brasil e Cuba
A diáspora africana criou paralelos profundos entre as matrizes religiosas do Brasil e Cuba, com o Ifá Lucumí servindo como ponte viva. No enredo, a Tuiuti explora como escravizados iorubás carregaram saberes ancestrais, adaptando-os em contextos de opressão e reinventando identidades culturais.
Em Cuba, o sistema Ifá floresceu na Regla de Ocha e no Palo Monte, enquanto no Brasil dialoga com candomblé e umbanda. O desfile enfatiza essa herança comum, mostrando rituais que transcendem fronteiras e fortalecem a resistência negra contemporânea.
Jack Vasconcelos planeja alegorias inspiradas em terreiros cubanos, com texturas vivas, paredes coloridas e símbolos sagrados. Fantasias evocam orixás e babalaôs, reforçando a estética afro-caribenha.
- Semelhanças incluem o uso de opelê e oponifá para adivinhação.
- Tambores batá e atabaques unem ritmos sagrados das duas nações.
- A presença de entidades como Exu-Eleguá destaca sincretismos compartilhados.
Samba-enredo e preparação
O samba-enredo oficial, composto por Cláudio Russo, Gustavo Clarão e Luiz Antônio Simas, foi apresentado em agosto de 2025. A letra invoca "Meu padrinho me falou, cada um tem seu orí", exaltando o destino guiado pelo Ifá e a raiz lucumí.
Luiz Antônio Simas, babalaô e historiador, enriquece a obra com autenticidade, enquanto o intérprete Pixulé promete potência vocal. A escola aposta em ensaios intensos para harmonizar o canto da comunidade, superando críticas passadas.
O Tuiuti inclui ala com integrantes trans e travestis, alinhando diversidade à mensagem de inclusão espiritual. Com barracão novo, a logística flui melhor, acelerando produção de carros e fantasias.
- Refrão exalta "Babá Moforibalé, Orunmilá Taladé", chamando bênçãos ancestrais.
- Versos narram rompimento de grilhões e expansão da rama caribenha ao Brasil.
- Ensaio técnico e recadastramento comunitário já avançam para fevereiro de 2026.
Impacto no Carnaval 2026
O enredo Lonã Ifá Lukumi reforça a vocação afrocentrada da Tuiuti, elevando debates sobre patrimônio imaterial da humanidade. Ao unir Brasil e Cuba na avenida, o desfile promove compreensão intercultural e valoriza religiões de matriz africana em meio a desafios contemporâneos.
Após 10º lugar em 2025 com enredo sobre Xica Manicongo, a escola mira ascensão no Grupo Especial. A escolha precoce do samba permite maturação artística, potencializando um hino marcante na folia.
Especialistas veem no tema potencial para inovação visual e sonora, transformando o Sambódromo em espaço de axé e memória coletiva. O público espera um espetáculo que dialogue com a diáspora, inspirando reflexões sobre identidade e fé.
- Desfile ocorre em 17 de fevereiro de 2026, terça-feira de Carnaval.
- Expectativa de alas temáticas como rituais de iniciação e cortejo de orixás.
- Contribuição para visibilidade de práticas religiosas minoritárias no Brasil.