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Ciência

Imersão na Fiocruz inspira meninas a seguir carreira científica

12 fev 2026 - 08h43 Joice Gomes   atualizado às 08h46
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Imersão na Fiocruz inspira meninas a seguir carreira científica Imersão na Fiocruz expõe estudantes do ensino médio a laboratórios e pesquisadoras, inspirando meninas a seguir carreira científica. (Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Não é mais apenas uma “maluquice” de criança misturar frascos em casa. Aos 17 anos, Raíssa Cristine de Medeiros Ferreira já vê o laboratório como casa, e a ciência como destino. Após participar duas vezes da imersão de verão na Fiocruz, ela se convenceu de que quer seguir carreira na área, ao lado de outras jovens que descobrem que, afinal, ser cientista não exige ser “gênio”, mas sim ter curiosidade, disciplina e vontade de se impor. A experiência, ainda mais intensa no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, em 11 de fevereiro, expõe o esforço das instituições para reduzir a desigualdade de gênero nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).

Um caminho quase obrigatório para a ciência

Raíssa lembra que, quando ainda era criança, a mãe a chamava de “cientista maluca” e dizia que, ao crescer, a obrigaria a fazer um curso de química. Hoje, na iminência de concluir o ensino médio com técnico em Química no Instituto Federal do Rio de Janeiro, ela realmente imagina o próprio futuro em laboratório. A jovem viu nas páginas da história das mulheres na ciência um reflexo de sua própria trajetória. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tem aproveitado esse efeito espelho para atrair estudantes de escolas públicas, trazendo meninas de diferentes periferias da Região Metropolitana para dentro de seus centros de pesquisa.

Desde 2020, a Fiocruz organiza a imersão de verão, voltada especificamente a estudantes do ensino médio cursando a rede pública. A iniciativa coincide com o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência (11 de fevereiro), instituído pela Assembleia Geral da ONU em 2015 para chamar atenção para a sub-representação feminina nas áreas STEM. A data é implementada em parceria com a UNESCO e a ONU-Mulheres, como parte de esforços mais amplos para promover a igualdade de gênero e ampliar o acesso de meninas à ciência.

Por que ainda fala-se tanto de mulheres na ciência

Apesar de as mulheres já representarem maioria em alguns grupos de formação científica no Brasil, o desequilíbrio persiste em áreas consideradas “núcleo” do STEM, como ciências exatas, engenharia e matemática. Em engenharia, por exemplo, o corpo docente feminino gira em torno de 23%; em ciências exatas e da Terra, cerca de 24%. Em nível global, estudos apontam que apenas cerca de um quarto dos profissionais de ciência, tecnologia, engenharia e matemática seja mulher, o que reforça a necessidade de políticas específicas para incentivar trajetórias femininas.

Esse cenário explica a importância de programas como o Mulheres e Meninas na Ciência, coordenado na Fiocruz pela analista Beatriz Duqueviz. Segundo ela, a própria existência de um programa voltado a mulheres em uma instituição centenária é um sinal de que o espaço feminino em ciência ainda é conquista recente, e não naturalizado. A iniciativa atua em três frentes: reconhecimento e valorização das cientistas; pesquisa sobre gênero no campo científico; e captação de interesse entre meninas, sobretudo aquelas em situação de vulnerabilidade.

Do laboratório às salas de redação científica

Na imersão deste ano, cerca de 150 alunas de diversas cidades da Região Metropolitana passaram três dias em contato direto com pesquisadoras e laboratórios de 13 unidades da Fiocruz. Entre os roteiros, as estudantes visitaram microscópios e provetas associados à imagem clássica do “cientista”, mas também espaços menos conhecidos, como o Laboratório de Conservação Preventiva, que preserva o patrimônio histórico da instituição, e o ambiente de edição da Revista Cadernos de Saúde Pública, uma das publicações científicas da fundação.

A co-editora-chefe da revista, Luciana Dias de Lima, destaca que mostrar às jovens o trabalho coletivo e multidisciplinar por trás da produção científica ajuda a desconstruir a ideia de que o cientista é um “gênio solitário”. Em Cadernos de Saúde Pública, três mulheres dividem o cargo de co-editoras chefes, o que, em si, é um exemplo de liderança feminina em uma posição de influência. Ainda assim, Luciana reconhece que alcançar cargos de topo na carreira científica continua a ser um desafio para as mulheres, em especial por conta da divisão de responsabilidades entre trabalho, família e cuidados.

Três dias que mudam a forma de enxergar o futuro

Estudantes como Duane de Souza, de 17 anos, moradora de Bangu, veem na imersão uma chance de desvendar o que significa, na prática, fazer pesquisa. Ela já decide seguir a área de biologia, mas reconhece que, antes da experiência na Fiocruz, imaginava a pesquisa como algo extremamente difícil e distante. Depois de ver o dia a dia de laboratório, percebeu que o trabalho científico é feito de etapas, curiosidade e rotina, e não apenas de “fórmulas” inacessíveis.

Beatriz Duqueviz explica que o intuito do programa é justamente ampliar a compreensão das estudantes sobre o que é ciência, desconstruindo estereótipos arraigados desde a infância. Ao mesmo tempo, o formato busca exibir modelos de referência femininos, mostrando que existem caminhos concretos para mulheres assumirem posições de liderança em pesquisa, mesmo diante de estruturas ainda majoritariamente masculinas.

Ciência da computação e a batalha contra o tabu

Para Sulamita do Nascimento Morais, de 17 anos, a imersão reforça uma decisão que já vem sendo construída em paralelo: estudar ciência da computação. Moradora de uma escola estadual e já bolsista de iniciação científica em uma universidade, ela conta que, até pouco tempo, nem sabia que a tecnologia poderia ser um caminho para mulheres. Ainda existe, em sua percepção, um tabu de que tecnologia é “coisa de menino”, e isso influencia diretamente a escolha de carreira e a persistência de alunas em áreas de informática e engenharia de software.

Projetos voltados a meninas e mulheres na ciência, como o da Fiocruz, ajudam a criar um espaço de visibilidade para essa desconstrução. Ao colocar as estudantes frente a frente com pesquisadoras, mostre-lhes laboratórios e equipes de editoração científica, essas iniciativas mostram que a participação feminina não é apenas possível, mas necessária para ampliar perspectivas e inovações na ciência.

Impacto imediato e futuro de carreira

Na prática, o impacto dessa imersão vai além de um simples passeio. Estudantes que antes enxergavam a ciência como algo elitizado ou distante passam a ver universidades, institutos de pesquisa e editores científicos como ambiente acessível. A experiência contribui para reduzir a desigualdade de gênero no campo científico, incentivando a permanência de alunas nas áreas STEM ao longo da graduação, pós-graduação e carreira de pesquisa.

Além disso, a presença de meninas em programas como o Mulheres e Meninas na Ciência fortalece a rede de apoio entre cientistas mulheres, que, por sua vez, se tornam mentoras para novas gerações. Esse ciclo de referências e incentivo é visto como um dos pilares mais importantes para que a participação feminina na ciência deixe de ser apenas um indicador a ser melhorado e passe a ser um traço natural da produção científica brasileira.

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