Escolas da Série Ouro do Rio como Unidos de Padre Miguel, Estácio de Sá e Império Serrano entram em quadra com enredos históricos e políticos.
(Imagem: Thais Brum/ UPM)
Na Série Ouro 2026, o retorno ao Grupo Especial passou a ser mais que um objetivo administrativo: virou chamada de resistência simbólica e manifesto cultural. Entre as escolas que sobem à Marquês de Sapucaí, nomes como Unidos de Padre Miguel, Estácio de Sá e Império Serrano carregam currículos vitoriosos no Grupo Especial e agora tentam reconquistar o lugar de elite com enredos que misturam história, religião e reivindicação de reparação histórica. O campeonato da Série Ouro se tornou, assim, um espaço de batalha dupla: pela nota dos jurados e pela visibilidade de temas pouco contados na avenida.
Luta por reconstrução histórica
A Unidos de Padre Miguel, rebaixada em 2025, entra em quadra com o enredo Kunhã‑Été – O sopro sagrado da jurema, que exalta a guerreira indígena potiguara Clara Camarão, protagonista da resistência contra a invasão holandesa no século XVII. A escola sustenta que o enredo é uma resposta simbólica ao rebaixamento, lido como “prejuízo de julgamento”, especialmente nos quesitos samba‑enredo e som. O desfile, organizado em 22 alas e três alegorias, articula a trajetória militar de Clara com a espiritualidade ligada ao Toré e à árvore mística da Jurema, ressaltando a continuidade da tradição oral onde os registros coloniais falham.
Segundo o carnavalesco Lucas Milato, o projeto é uma forma de combater o apagamento histórico das mulheres na narrativa oficial. Ao pesquisar a figura de Clara, ele observou que a maioria das fontes cessava após a morte de seu marido, evidenciando um padrão de atribuir protagonismo apenas quando a mulher está à sombra de um homem. A escola, então, estrutura o desfile como manifesto: a cor verde‑mística da Jurema, aliada ao barroquismo das batalhas, traduz visualmente uma crítica a esse apagamento e reafirma a presença feminina como eixo central da resistência indígena.
- Unidos de Padre Miguel desfila com 22 alas e três alegorias, centradas na espiritualidade indígena e na figura de Clara Camarão.
- A escola aponta descontos de nota por questões de samba‑enredo (com termos em iorubá) e por falha no sistema de som como fatores determinantes do rebaixamento em 2025.
- O enredo busca reforçar o protagonismo feminino em contextos de colonização e resistência, ligando história e memória coletiva.
Defesa de identidades afro‑brasileiras
Do outro lado da competição, a Estácio de Sá – campeã da antiga Série A em 1992 – entra na Série Ouro com o enredo Tatá Tancredo: o Papa Negro no terreiro do Estácio, que resgata a trajetória de Tancredo da Silva Pinto, compositor, escritor, colunista e líder religioso fundador da umbanda omolokô. Ao contrário de uma simples biografia, o desfile se organiza como redescoberta de uma identidade afro‑brasileira que combateu o branqueamento cultural, articulando elementos africanos, indígenas e europeus numa religiosidade plural. A escola, que carrega o título de “mais antiga” do Rio por reunir heranças de agremiações como a Deixa Falar, vincula esse passado histórico à própria formação de samba e escola de samba.
O carnavalesco Marcus Paulo explica que o enredo parte da infância de Tancredo em Cantagalo, onde ele se encanta com blocos de carnaval e com figuras femininas ligadas à Rainha Ginga, referência de liderança afro‑descendente. Na passagem para o Morro de São Carlos, o personagem organiza festas e celebrações que reafirmam elementos africanos em meio à perseguição a religiões de matriz africana. O episódio da Gira de Umbanda no Maracanã em 1965, que lotou o estádio, é transformado em referência visual para mostrar a força dessa mobilização, ainda que hoje, segundo o carnavalesco, parte da festa de Copacabana tenha sido despojada de seu caráter religioso.
- Estácio de Sá conta a trajetória de Tancredo da Silva Pinto, defensor da umbanda omolokô e da pluralidade cultural.
- A escola é reconhecida como herdeira da Deixa Falar, primeira agremiação de samba do Rio, e destaca a importância da oralidade para preservar a memória do homenageado.
- O objetivo declarado é convencer jurados e público de que a escola merece retornar ao Grupo Especial em 2027, ano em que completará um século de existência.
Reforço da identidade carnavaliza
Além de Unidos de Padre Miguel e Estácio de Sá, a Série Ouro de 2026 reúne escolas que já tiveram passagem pela “primeira divisão”, como Império Serrano – campeã do Grupo Especial em 1960, 1972 e 1982. A presença dessas agremiações reforça a tensão dramática da competição: cada desfile não é apenas um teste de organização, mas um pleito por reconhecimento histórico. O calendário oficial distribui a Série Ouro entre sexta‑feira e sábado, com a megaparceria de agremiações que se alternam entre longínquias comunidades periféricas e centros carnales tradicionais, como União da Ilha do Governador, Unidos do Porto da Pedra e Unidos da Ponte.
A ordem dos desfiles também reforça a importância política da Série Ouro: enquanto a noite da sexta‑feira concentra escolas como União do Parque Acari, Unidos de Bangu e União da Ilha, o sábado abre espaço para nomes históricos como Império Serrano, Estácio de Sá e Arranco do Engenho de Dentro. O formato cria um confronto direto entre tradições diferentes, mas igualmente legitimadas pela memória carnavaliza, sugerindo que o retorno ao Grupo Especial não será decidido apenas por pontos no papel, mas por narrativas que dialoguem com a história recente e a crise econômica que afeta o carnaval de rua.
- Império Serrano retorna à Série Ouro após períodos em disputas de elite, trazendo consigo um legado vitorioso de três títulos no Grupo Especial.
- A ordem dos desfiles articula comunidades de periferia com escolas tradicionalmente centrais, reforçando a diversidade socioespacial do carnaval carioca.
- O retorno ao Grupo Especial ganha contornos de disputa por legitimidade cultural, além de reconhecimento institucional.
Impacto prático e simbólico
Do ponto de vista prático, a disputa na Série Ouro definirá o número de vagas que sobrarão para novas escolas, fazendo do campeonato um espaço de disputa entre narrativas consolidadas e novas experiências de comunidade. A presença de enredos como Kunhã‑Été – O sopro sagrado da jurema e Tatá Tancredo: o Papa Negro no terreiro do Estácio amplia o leque de temas oficialmente autorizados pela avenida, reforçando a importância de histórias indígenas e afro‑brasileiras na programação do carnaval. Em termos simbólicos, a luta por voltar ao Grupo Especial é lida como um pedido de justiça histórica, seja pelas instituições de samba ou pela própria sociedade que assiste a essas disputas.
Para o futuro, o que se observa é um movimento convergente: escolas que já conheceram o topo da competição agora apostam em narrativas mais densas, misturando pesquisa, espiritualidade e denúncia. A Série Ouro, antes vista como etapa de transição, passa a ser encarada como plataforma de contestação e de reafirmação de identidades muitas vezes esquecidas. A pergunta que fica em aberto é se, ao reivindicar o regresso à elite, essas agremiações não estão, na verdade, redesenhando o próprio sentido do carnaval de elite, submetendo-o a um novo padrão de exigência histórica e simbólica.