Cientistas investigam o comportamento de proteínas celulares para desenvolver novos tratamentos contra o câncer
(Imagem: Canva)
Uma proteína localizada na superfície das células pode se tornar uma grande aliada na luta contra o câncer. Um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com o apoio financeiro da Fapesp, identificou que a molécula sindecam-4 atua diretamente no avanço de tumores. Experimentos laboratoriais demonstraram que o bloqueio dessa proteína é capaz de interromper a divisão celular e eliminar a blindagem protetora que as células cancerígenas utilizam para sobreviver quando estão soltas no organismo.
Na formação de tecidos saudáveis, as células precisam permanecer ancoradas umas às outras. Quando uma célula normal se desprende dessa estrutura, ela passa por um processo natural de morte programada pela falta de ancoragem, conhecido na medicina como anoikis. No entanto, as células tumorais mais agressivas conseguem resistir a esse mecanismo de autodestruição, sobrevivendo de forma livre na corrente sanguínea para colonizar novos órgãos e gerar metástases.
Entenda como a proteína atua no avanço do tumor
Embora a sindecam-4 seja produzida de forma natural pelo corpo humano para auxiliar na adesão das células, a sua presença em níveis excessivos está diretamente associada à evolução de quadros oncológicos. Para compreender o comportamento dessa molécula, os cientistas realizaram testes em laboratório utilizando células de vasos sanguíneos de coelhos, forçando-as a permanecer sem qualquer ponto de ancoragem física.
A análise revelou que, embora a maioria das células tenha morrido, uma parcela inferior a 5% conseguiu sobreviver e adquiriu um comportamento altamente agressivo, passando a produzir a proteína em abundância. Ao realizarem o silenciamento genético da molécula nas células sobreviventes, os pesquisadores conseguiram reverter o comportamento maligno, fazendo com que elas perdessem a agressividade e voltassem a depender da adesão para sobreviver.
Impacto no ciclo de multiplicação celular e próximos passos
Além de restabelecer a sensibilidade das células à falta de ancoragem, a interrupção da atividade da proteína afetou diretamente o ritmo de proliferação do tumor. O procedimento estimulou o aumento da p27, uma substância que atua como inibidora natural da divisão celular, e reequilibrou a atuação das ciclinas e CDKs, que são as proteínas responsáveis pelo controle do ciclo de multiplicação celular.
Em declaração sobre a descoberta científica, a professora Carla Cristina Lopes, do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp, ressaltou que os resultados apontam a molécula como um alvo terapêutico e marcador de diagnóstico promissor. Contudo, a pesquisadora ponderou que os achados ainda são iniciais e demandam testes adicionais em células humanas antes de serem aplicados na prática clínica. O grupo de pesquisa investiga agora se compostos como o canabidiol podem atuar de forma eficaz na regulação da proteína.