Comunidades extrativistas trabalham na coleta e preservação da mangaba em áreas ameaçadas pela expansão urbana
(Imagem: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil)
A expansão urbana na região sul de Aracaju está pressionando diretamente as últimas áreas remanescentes de mangabeiras na capital. As catadoras de mangaba, mulheres que dependem historicamente do manejo e da coleta desse fruto nativo, enfrentam o avanço de construções civis para proteger um modo de vida totalmente integrado à natureza. A atividade garante o sustento financeiro de dezenas de famílias tradicionais da localidade.
Para organizar a resistência e o beneficiamento do fruto, a Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba Padre Luiz Lemper atua na interlocução com o Poder Público e na preservação do saber tradicional. Esse empenho garantiu à entidade o primeiro lugar na categoria Povos e Comunidades Tradicionais do Prêmio Guardiãs da Sociobiodiversidade, concedido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O prêmio de R$ 45 mil foi revertido em oficinas e estudos estruturais.
Comunidade lança Plano de Manejo Popular para proteger a reserva
O território habitado pelas famílias é composto por duas áreas protegidas contíguas, incluindo a Reserva Extrativista Uilson de Sá. Durante a 5ª Festa da Colheita, a comunidade lançou oficialmente o seu próprio Plano de Manejo Popular. O documento técnico e histórico foi desenvolvido coletivamente para subsidiar a gestão participativa e evitar que regras externas sejam impostas pela prefeitura municipal sem a consulta dos moradores locais.
Existe uma preocupação por parte das catadoras de mangaba de que a administração municipal transforme a reserva em um parque urbano aberto, o que descaracterizaria a unidade de conservação voltada ao extrativismo sustentável. Além dos impasses políticos, as árvores sofrem impactos ambientais severos causados pela proximidade dos prédios. A ausência de vegetação de amortecimento afasta as mariposas polinizadoras, reduzindo drasticamente a produtividade das mangabeiras.
Conflitos históricos e o legado na defesa do território tradicional
O processo de criação da reserva extrativista foi marcado por conflitos urbanos intensos desde os anos 2010. A demarcação ambiental ocorreu como condicionante para a construção de um conjunto habitacional vizinho, mas a comunidade aponta que a delimitação ignorou parte da área tradicional e foi precedida pela derrubada de muitas árvores. Nesse período, o missionário Uilson de Sá tornou-se liderança central ao unir a pauta extrativista com a busca por moradia popular.
Uilson de Sá, que sofria ameaças e integrava o Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos, foi encontrado morto em 2022. As investigações policiais apontaram que o óbito decorreu de asfixia acidental, mas o líder tornou-se símbolo eterno da causa, nomeando a Resex. Hoje, as matriarcas da comunidade relatam que o sentimento de insegurança persiste devido a boatos sobre novas ocupações na área protegida.
Sergipe perde protagonismo na produção nacional do fruto nativo
Embora o ofício das catadoras de mangaba seja considerado patrimônio cultural de Sergipe por lei estadual, o estado perdeu a liderança histórica na produção da fruta. Dados oficiais do IBGE apontam que Sergipe ocupa atualmente a quarta posição no ranking nacional de extração, ficando atrás da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de Minas Gerais. Especialistas apontam que a perda de espaço territorial para a urbanização causou essa queda severa.
Para o futuro, as famílias projetam cenários de fortalecimento econômico através do turismo de base comunitária, que pode complementar a renda no período de entressafra do fruto. Elas pleiteiam também a inclusão em programas de compras públicas de alimentos e planejam erguer a Casa da Mangaba. A Prefeitura de Aracaju informou que há um projeto arquitetônico aprovado para a construção dessa unidade de beneficiamento e ressaltou que mantém fiscalizações na região.