Acidentes com rede elétrica sobem no Brasil em 2025.
(Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
O avanço silencioso dos acidentes na rede elétrica brasileira acende um alerta vermelho para o perigo invisível que ronda canteiros de obras e residências no país. Em 2025, o número de ocorrências desse tipo saltou de 685 para 703 casos, segundo dados oficiais divulgados pela Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).
Embora o total de mortes tenha apresentado uma sutil retração recuando de 257 vítimas fatais para 252, a gravidade das sequelas físicas impõe uma dura realidade. No ano passado, 241 pessoas sofreram lesões gravíssimas, incluindo mutilações e queimaduras profundas, enquanto outras 210 registraram ferimentos moderados ou leves.
Na prática, isso significa que, diariamente, quase duas pessoas sofrem algum tipo de acidente de alta gravidade envolvendo a rede elétrica no Brasil. Mas o impacto vai muito além das estatísticas frias: por trás de cada número, há vidas interrompidas e famílias inteiras profundamente impactadas pelo choque elétrico repentino.
O que muda na prática com o avanço da informalidade
O principal motor dessa estatística preocupante é a construção civil, com 227 ocorrências que resultaram em 68 óbitos. O cenário de risco envolve principalmente reformas informais, manutenções prediais sem o devido isolamento e o perigoso hábito de "dar um jeitinho" para baratear ou acelerar a execução de serviços estruturais.
Segundo analistas do setor, a pressa e a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) transformam andaimes móveis, vergalhões de ferro e ferramentas de longo alcance em condutores mortais. O contato involuntário com os fios de alta tensão acontece em frações de segundo, muitas vezes devido à simples distração ou ao posicionamento inadequado de materiais.
Outro ponto crítico mapeado no relatório é a manipulação de maquinário pesado nas proximidades da rede elétrica, como guindastes e colheitadeiras agrícolas. Esse tipo de acidente quase dobrou de volume, registrando 66 casos em 2025. O avanço da mecanização no campo e o crescimento de obras urbanas sem planejamento preventivo explicam essa perigosa tendência.
O peso das ligações clandestinas e o ranking regional
E é aqui que está o ponto central da vulnerabilidade social: os chamados "gatos" ou ligações clandestinas de energia elétrica. Esse tipo de intervenção precária respondeu por 30 ocorrências, mas sua letalidade assusta, resultando em 15 óbitos, uma taxa de mortalidade de exatamente 50% para quem tenta manipular ilegalmente a rede.
Geograficamente, o Sudeste lidera o ranking nacional com folga, concentrando 243 acidentes e 78 mortes, impulsionado pelo grande volume de canteiros de obras. O Nordeste aparece em seguida com 187 registros e 67 mortes, enquanto o Norte registrou 122 acidentes e 50 mortes, fortemente marcados por intervenções irregulares na rede de distribuição.
No Sul, as atividades de construção e manutenção predial concentraram as 81 ocorrências e 31 óbitos. Já no Centro-Oeste, o destaque ficou por conta de operações de equipamentos rurais e construção, somando 70 acidentes e 26 óbitos em áreas de expansão agrícola e imobiliária.
Como reverter a tendência de acidentes nos próximos anos
A segurança na rede elétrica é, acima de tudo, uma responsabilidade coletiva que demanda mudanças culturais urgentes. Para enfrentar esse desafio, a Abradee promove a 20ª Campanha Nacional de Segurança com a Rede Elétrica, com foco em ações educativas intensivas até setembro, reforçando o lema "Energia liga. Segurança protege".
A iniciativa busca conscientizar desde o pequeno construtor residencial até o grande empresário rural sobre a importância de contar apenas com profissionais habilitados para lidar com eletricidade. O esforço envolve 42 distribuidoras que atendem cerca de 212 milhões de brasileiros de norte a sul do país.
O que pode acontecer a partir de agora depende diretamente da mudança de comportamento da própria população frente ao risco elétrico. Somente com o fim das improvisações residenciais e o respeito estrito às normas técnicas de segurança será possível caminhar em direção à meta ideal de acidentes zero no território nacional.