Novo centro brasileiro de emergências será gerido pela Fiocruz e focado em inteligência epidemiológica.
(Imagem: gerado por IA)
A vulnerabilidade exposta pela pandemia de Covid-19 e o recorde histórico de casos de dengue em 2024 serviram como o alerta final para uma mudança estrutural na saúde brasileira. Até o fim deste ano, o Governo Federal deve oficializar a criação do Centro Brasileiro de Emergências em Saúde Pública (Cbesp), uma unidade de inteligência e resposta rápida projetada para que o país não seja mais pego de surpresa por surtos, epidemias ou desastres climáticos.
Idealizado pelo Instituto Todos pela Saúde (ITpS) e em debate há anos entre especialistas, o Cbesp não será apenas mais um departamento burocrático. A proposta é que ele nasça como uma política de Estado, e não de governo. Na prática, isso significa que sua atuação será protegida por lei, baseada exclusivamente em evidências científicas e blindada contra interferências políticas ou negacionismo, garantindo continuidade independentemente de quem esteja no poder.
A governança da nova estrutura ficará sob o guarda-chuva da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O modelo busca integrar o Sistema Único de Saúde (SUS) a uma rede de monitoramento constante, conectando universidades, secretarias municipais e órgãos ambientais para detectar ameaças antes que elas se tornem incontroláveis.
O que muda na prática com a nova estrutura
Atualmente, o Brasil possui técnicos altamente qualificados, mas a resposta a crises muitas vezes sofre com a falta de uma coordenação centralizada e ágil. Com o Cbesp, o país passa a ter um corpo técnico permanente e especializado. Segundo o ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, o salto de qualidade está na criação de uma área de inteligência epidemiológica que tome decisões em tempo real.
Essa agilidade é crucial para enfrentar um cenário onde as ameaças são múltiplas. Somente este ano, o Brasil lidou simultaneamente com a maior epidemia de dengue de sua história, surtos de mpox e oropouche, além da ameaça constante da gripe aviária. O novo centro terá a missão de coordenar a comunicação pública, evitando mensagens contraditórias que confundam a população em momentos críticos.
Blindagem científica e impacto das mudanças climáticas
Um dos pontos mais sensíveis do projeto é garantir que o centro siga rigorosamente o Regulamento Sanitário Internacional. Gerson Penna, diretor-presidente do ITpS, reforça que a estrutura trará uma liderança técnica forte para evitar a repetição de erros do passado, como a descoordenação federal vista durante a crise do coronavírus, que resultou em milhares de mortes evitáveis.
Mas o impacto vai além dos vírus. O Cbesp terá um olhar atento para as emergências climáticas e o desmatamento, fatores que aceleram o surgimento de novas doenças. A ideia é que o centro funcione em uma lógica de intersetorialidade, onde a saúde conversa diretamente com a agricultura e o meio ambiente para monitorar o salto de patógenos de animais para humanos.
O financiamento do centro virá do Orçamento Geral da União, mas a estrutura também terá autonomia para captar recursos internacionais e gerar receita própria. Embora a criação administrativa esteja prevista para 2024, a expectativa é que o centro esteja em pleno funcionamento operacional até 2027, consolidando o Brasil como uma referência global em resiliência sanitária.