O fotógrafo João Roberto Ripper durante a inauguração da nova galeria no campus da Fiocruz.
(Imagem: gerado por IA)
Quem caminha pelos jardins históricos da Fiocruz, em Manguinhos, agora se depara com um convite à reflexão que vai além dos laboratórios e da ciência tradicional. A inauguração da Galeria a Céu Aberto transforma o gramado da Biblioteca de Manguinhos em um manifesto visual, estreando com a potência das lentes de João Roberto Ripper, um dos nomes mais fundamentais do fotojornalismo humanista no Brasil.
Aos 76 anos e com cinco décadas de estrada, Ripper não apenas registra fatos; ele documenta a alma de populações frequentemente invisibilizadas. A mostra gratuita apresenta 20 fotografias de grande impacto que colocam os direitos humanos no centro do debate, reforçando que a saúde pública, missão primordial da instituição, está intrinsecamente ligada à dignidade e ao bem-estar social.
Na prática, o novo espaço rompe as paredes das galerias tradicionais para democratizar o acesso à arte. Ripper acredita que a iniciativa abre caminho para que outros fotógrafos ocupem o campus, multiplicando as vozes que denunciam injustiças e celebram a resiliência das comunidades brasileiras. Mais do que contemplação, as imagens servem como material educativo e político para organizações de direitos humanos.
O que muda na prática com o novo espaço cultural
A criação da Galeria a Céu Aberto não é apenas uma adição estética ao campus. Ela representa a concretização de um conceito ampliado de saúde, onde a cidadania e a cultura são pilares fundamentais para uma sociedade saudável. A ideia nasceu de uma inspiração internacional: o Parque Rodó, em Montevidéu, onde exposições sobre refugiados ocupam o espaço público com naturalidade.
O curador da exposição, Dante Gastaldoni, destaca que a seleção das fotos priorizou o que ele chama de "bem-querer". Segundo ele, a obra de Ripper transborda um afeto profundo entre quem fotografa e quem é fotografado. É uma fotografia de relação, de escuta e de solidariedade, longe do olhar predatório ou puramente técnico que muitas vezes marca o registro da pobreza.
A força do afeto como ferramenta de resistência
As imagens expostas são fragmentos de um acervo monumental. O projeto Fiocruz Imagens está digitalizando e catalogando mais de 180 mil fotogramas em película de Ripper, garantindo que essa memória coletiva permaneça acessível para as futuras gerações. Esse esforço de conservação é vital para que a história das lutas sociais no Brasil não seja apagada.
Ao integrar arte e ciência em um ambiente de livre circulação, a Fiocruz reafirma seu papel como um polo de resistência cultural e diálogo social. A exposição "Humanidades" é o primeiro passo de um projeto que promete manter o gramado de Manguinhos como um ponto de encontro entre a sensibilidade artística e o compromisso ético com a vida.