O uso de PMMA em preenchimentos estéticos foi proibido pelo CFM para evitar sequelas graves e irreversíveis em pacientes.
(Imagem: gerado por IA)
A partir desta terça-feira (2), médicos de todo o Brasil estão oficialmente proibidos de utilizar o polimetilmetacrilato (PMMA) em procedimentos de preenchimento na pele. A decisão, fundamentada pela Resolução nº 2.461/2026 do Conselho Federal de Medicina (CFM), surge como uma resposta drástica ao aumento alarmante de casos de mutilações, infecções e complicações sistêmicas graves associadas à substância.
A medida não apenas veta a aplicação, mas transforma qualquer publicidade sobre o uso do polímero em uma infração ética imediata. Na prática, isso significa que o médico não precisa causar um dano real ao paciente para ser punido; a simples oferta ou promoção do produto já é passível de sanções severas pelos conselhos regionais, independentemente de eventuais denúncias externas.
O impacto dessa proibição vai além dos consultórios e clínicas de estética. Ela toca em um ponto sensível da segurança do paciente no país, onde a busca por resultados definitivos muitas vezes ignora riscos biológicos irreparáveis. Como o PMMA é um material plástico não absorvível, uma vez injetado, ele se integra aos tecidos de forma permanente, tornando qualquer erro ou reação algo vitalício.
O que muda na prática para pacientes e médicos
A nova regra define que o uso do PMMA para fins estéticos ou reparadores agora é terminantemente proibido no ato médico. De acordo com a relatora da resolução, a cirurgiã plástica Graziela Bonin, o objetivo central é interromper um ciclo de complicações que, em muitos casos, só aparecem anos após o procedimento. A inflamação crônica gerada pelo material pode causar dor intensa, manchas e deformações que destroem a saúde física e mental.
Embora a resolução regule apenas a conduta de médicos, o CFM espera que a medida sirva de alerta máximo para toda a população sobre o perigo inerente da substância. A entidade reforça que a segurança do paciente deve estar acima de qualquer tendência estética ou viabilidade comercial, sinalizando tolerância zero para o uso de preenchedores plásticos permanentes no corpo humano.
Por que o PMMA é considerado uma ameaça à saúde
O grande perigo do PMMA reside em sua natureza química e física. Diferente do ácido hialurônico, que é naturalmente absorvido pelo organismo com o tempo, este polímero atua como um corpo estranho perpétuo. O organismo reage à sua presença criando granulomas — pequenos nódulos inflamatórios — que podem migrar para outras regiões, causar hipercalcemia e até levar à falência renal crônica grave.
Remover o material após uma complicação é um processo extremamente traumático e invasivo. Como o gel se entrelaça intimamente aos músculos, nervos e à gordura subcutânea, a única forma de retirá-lo é através de cirurgias mutilantes. Em muitos casos, os cirurgiões precisam remover vastas áreas de tecido saudável para tentar conter o avanço da inflamação, deixando cicatrizes profundas e perdas funcionais.
A exceção necessária e o impasse com a Anvisa
A única exceção prevista pela nova resolução do CFM é o tratamento da lipodistrofia em pacientes que vivem com HIV/Aids. Nesses casos específicos, onde há perda ou redistribuição de gordura corporal devido ao uso de antirretrovirais, o uso do PMMA segue autorizado. No entanto, o procedimento só pode ocorrer em unidades de alta complexidade credenciadas pelo SUS, respeitando diretrizes técnicas e protocolos clínicos rigorosos.
Apesar da proibição médica, existe um evidente conflito institucional no Brasil. A Anvisa ainda mantém o registro do produto, alegando que ele é seguro se utilizado estritamente sob as regras de indicação aprovadas. Enquanto o CFM busca o banimento total das prateleiras comerciais, a agência reguladora defende que o risco-benefício é aceitável quando a aplicação é feita por profissionais treinados para fins de saúde específicos.
Este cenário coloca o paciente no centro de uma vigilância redobrada e necessária. A decisão do CFM marca um endurecimento ético que prioriza a integridade física sobre a estética momentânea, sinalizando que o mercado brasileiro deve evoluir para procedimentos mais seguros, previsíveis e menos agressivos. O futuro do uso do PMMA agora depende de um novo diálogo entre os órgãos reguladores, visando garantir que o desejo pela beleza não resulte em novas tragédias irreparáveis.