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Saúde

Além do brilho do celular: o desafio de devolver a criatividade às crianças na era das telas

O uso abusivo de tecnologia cria um ciclo de dependência e reduz a capacidade das crianças de criar as próprias brincadeiras. Entenda os riscos e soluções.

30 mai 2026 - 14h03 Joice Gomes   atualizado às 14h06
Além do brilho do celular: o desafio de devolver a criatividade às crianças na era das telas Brincadeiras tradicionais e contato com a natureza são essenciais para combater o sedentarismo digital. Foto: Agência Brasil (Imagem: gerado por IA)

O cenário das ruas brasileiras mudou drasticamente em uma geração: onde antes se ouviam gritos de 'pique-esconde' e o barulho da bola batendo no asfalto, hoje predomina o silêncio de crianças sentadas, com o olhar hipnotizado pelo brilho das telas. Para a auxiliar de limpeza Hozana da Silva, essa metamorfose é visível e nostálgica. Ela recorda com nitidez o tempo do pique-bandeira e da queimada, lamentando que, atualmente, a diversão pareça estar confinada à palma da mão.

Essa percepção não é apenas um saudosismo individual, mas um reflexo de uma transformação profunda no desenvolvimento infantil. O Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio, coloca o dedo em uma ferida aberta: a coexistência conflituosa entre a tradição lúdica e a onipresença digital. Na prática, a tecnologia tem preenchido espaços que antes pertenciam à experimentação e ao tédio criativo.

A terapeuta ocupacional Amanda Sposito, da Universidade de São Paulo (USP), explica que essa mudança é impulsionada por um contexto social complexo. A insegurança urbana empurra as crianças para dentro de casa, enquanto famílias menores e pais sobrecarregados pelo trabalho acabam delegando aos dispositivos eletrônicos a tarefa de entreter os filhos. O resultado é um isolamento digital que molda novas formas de comportamento desde a primeira infância.

O que muda na prática: o ciclo do tédio digital

Amanda é orientadora do estudo 'Tecnologias digitais moldam o novo brincar infantil', que analisou o comportamento de crianças e trouxe um alerta preocupante: o uso abusivo de telas gera um ciclo vicioso de perda de criatividade. Ao serem expostas a estímulos prontos e rápidos, as crianças perdem a capacidade de 'inventar' o que fazer quando o aparelho é desligado.

Segundo a especialista, os próprios pequenos admitem a dificuldade de pensar em atividades fora do mundo virtual. Eles se tornam dependentes de um adulto seja pai, professor ou monitor, para propor qualquer tipo de brincadeira. Sem um roteiro pré-estabelecido por um algoritmo ou por um responsável, o ócio se torna insuportável, empurrando-os de volta para o consumo digital imediato.

Esse padrão vai além do comportamento e afeta a saúde física e mental. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria já estabelecem limites rígidos de tempo conforme a idade, alertando para riscos que incluem desde atrasos cognitivos e problemas emocionais até doenças oculares e ortopédicas. O ponto central é evitar que o dispositivo substitua funções biológicas básicas, como o sono e a alimentação.

Como equilibrar a tecnologia e a saúde emocional

Muitos pais já buscam alternativas para retomar o controle. A lojista Edilaine Ferreira, por exemplo, utiliza aplicativos de controle parental para limitar o tempo de tela da filha a no máximo duas horas diárias. Mais do que restringir o tempo, ela monitora o conteúdo, após experiências negativas com materiais inapropriados que burlaram os filtros das plataformas.

Mas o impacto vai além da proibição. Especialistas defendem que o caminho não é necessariamente a exclusão total da tecnologia, mas sim o seu uso responsável e mediado. Projetos como o Gaming Park, que atua em comunidades no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, mostram que os videogames podem ser ferramentas de sociabilidade, trabalho em equipe e até porta de entrada para carreiras profissionais em e-sports.

O foco, portanto, deve ser a educação midiática e o letramento digital. Isso significa ensinar as crianças e os adultos, a entenderem como funcionam os algoritmos, os riscos das fake news e a importância da proteção de dados. É um processo de conscientização coletiva que exige, inclusive, uma fiscalização mais rigorosa sobre as empresas que administram essas plataformas e lucram com o engajamento excessivo.

Em última análise, garantir o direito ao brincar 'raiz' é proteger a autonomia intelectual da próxima geração. Estimular o contato com o mundo real, mesmo diante das facilidades do digital, é fundamental para que as crianças recuperem a capacidade de imaginar, criar e, acima de tudo, interagir com o que está além do vidro de um smartphone.

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