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Qua, 15 de Julho
Educação

Educação antirracista: metade dos alunos brasileiros não reconhece debate em sala de aula

Metade dos estudantes brasileiros não reconhece debates sobre desigualdade racial nas escolas, revelando falhas na aplicação das leis federais de ensino.

26 mai 2026 - 08h57 Joice Gomes
Educação antirracista: metade dos alunos brasileiros não reconhece debate em sala de aula Pesquisa aponta que aplicação das leis de ensino de história africana e indígena ainda é irregular no Brasil. (Imagem: gerado por IA)

Apesar de o Brasil contar com leis federais que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena há mais de duas décadas, a realidade prática dentro das escolas ainda é marcada pela invisibilidade. Um levantamento inédito, baseado em dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2023, aponta que aproximadamente 50% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio não reconhecem a existência de debates sobre desigualdades raciais em seu cotidiano escolar.

O cenário revela um descompasso profundo entre a intenção pedagógica e a recepção do conteúdo. Enquanto mais de 80% dos professores afirmam abordar o tema com frequência, menos da metade dos alunos consegue identificar essa prática. Na prática, isso muda mais do que parece: a falta de percepção dos jovens indica que o tema pode estar sendo tratado de forma superficial, episódica ou desconectada da realidade social, perdendo sua eficácia como ferramenta de transformação cidadã.

Para famílias que convivem com o racismo no dia a dia, como a da advogada Karina Berardo, o esforço escolar ainda parece insuficiente. Ela relata que, embora tenha notado uma ampliação do tema no ensino médio, as discussões costumam ficar restritas ao período da escravidão ou a abordagens que ela define como "caricatas". Esse sentimento é compartilhado por muitos pais que veem na escola um espaço de potencial mudança, mas que ainda esbarra em limitações estruturais e na falta de uma aplicação consistente do currículo.

O que explica o abismo entre o currículo e a sala de aula

A pesquisa, realizada por uma coalizão entre o Núcleo de Pesquisa Afro do Cebrap, o Instituto Alana e o Geledés, sugere que a aplicação das leis 10.639/2003 e 11.645/2008 ocorre de forma heterogênea. O ponto central aqui é a falta de uma diretriz universal que obrigue a transdisciplinaridade. Sem isso, o debate racial acaba isolado em datas específicas, como o Dia da Consciência Negra, em vez de atravessar todas as disciplinas e o projeto pedagógico da instituição.

Outro dado que chama a atenção é a diferença de percepção entre as redes de ensino. Nas escolas privadas, a ausência do debate é ainda mais sentida: 60,8% dos alunos afirmam não ver o tema em sala, contra cerca de 51% na rede pública. Segundo a socióloga Flávia Rios, da USP, as instituições particulares têm sido menos cobradas pela aplicação da legislação, o que pode gerar ambientes mais propensos a situações de discriminação e exclusão.

Por que o monitoramento é o próximo passo

Especialistas defendem que não basta a existência da lei; é preciso fiscalização e apoio contínuo aos educadores. A necessidade de materiais didáticos específicos e de uma formação sólida para professores não negros é urgente. O objetivo da educação antirracista não é apenas atender estudantes negros e indígenas, mas formar todos os grupos sociais para o respeito e a compreensão das diversas contribuições que moldaram a nação brasileira.

O estudo recomenda que os governos se mobilizem para institucionalizar essas políticas, promovendo a diversidade racial no corpo docente e criando espaços de diálogo permanentes. A percepção de ausência do tema é mais elevada entre alunos brancos, o que reforça que o debate racial ainda é visto por muitos como um assunto de nicho, e não como uma competência fundamental da educação básica.

A longo prazo, a esperança de famílias como a de Juliana Couto, cujas filhas já sofreram preconceito no ambiente escolar, é que essas discussões deixem de ser sementes isoladas para se tornarem a base da formação escolar. O caminho para uma educação verdadeiramente inclusiva depende de transformar o que hoje é um dado estatístico preocupante em uma vivência diária de reconhecimento e valorização da diversidade, garantindo que as próximas gerações não precisem mais questionar onde está o debate sobre sua própria história.

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