Novo aplicativo A.Dot facilita a conexão entre pretendentes e crianças aptas à adoção em todo o país.
(Imagem: gerado por IA)
Mais de 1.800 crianças e adolescentes brasileiros que hoje vivem em abrigos ganharam uma nova oportunidade de encontrar um lar. O aplicativo A.Dot, oficializado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) nesta segunda-feira (25), chega com a missão de transformar a chamada "busca ativa" em um processo mais humano, visual e acessível para quem deseja adotar.
A iniciativa foca justamente nos perfis que costumam ser preteridos nas filas tradicionais: adolescentes, grupos de irmãos e crianças com necessidades específicas de saúde ou deficiência. Na prática, a tecnologia remove as barreiras burocráticas e permite que pretendentes habilitados conheçam as histórias por trás dos números, utilizando o login unificado do portal Gov.br para garantir segurança e sigilo.
Desde 2019, o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) já viabilizou mais de 33 mil adoções, mas o desafio da chamada "adoção tardia" permanece crítico. O novo aplicativo, que nasceu originalmente de uma experiência bem-sucedida no Tribunal de Justiça do Paraná, agora ganha escala nacional para tentar mudar essa realidade de forma ética e protegida.
O que muda na prática para quem deseja adotar
O grande diferencial do A.Dot é a possibilidade de uma apresentação humanizada. Através da plataforma, os pretendentes podem visualizar fotos, informações essenciais e até vídeos curtos onde as crianças e adolescentes falam de seus sonhos e personalidades. É um passo além das fichas frias de dados que compõem os processos convencionais.
Segundo o ministro Edson Fachin, presidente do STF e do CNJ, o acesso qualificado à informação é uma ferramenta de proteção integral. Para ele, a tecnologia permite que as decisões dos futuros pais sejam mais conscientes e responsáveis, fortalecendo o vínculo antes mesmo do primeiro encontro físico. Mas o impacto vai além da simples visualização.
O aplicativo também permite que os interessados iniciem o pré-cadastro e acompanhem o estágio de sua habilitação. No entanto, o rigor jurídico continua absoluto: a inclusão de qualquer menor na plataforma depende de autorização judicial expressa, e os usuários precisam assinar termos de compromisso com a preservação da imagem e intimidade desses jovens.
Por que a busca ativa é o ponto central da mudança
A realidade do sistema de adoção no Brasil revela um descompasso: há muitos pretendentes, mas a maioria busca perfis de crianças muito pequenas. O A.Dot ataca esse gargalo. Atualmente, mais de 90% dos jovens disponíveis na busca ativa têm mais de oito anos de idade, e 60% deles possuem pelo menos um irmão também disponível para adoção.
Manter esses grupos unidos é uma das prioridades da ferramenta. Dados do CNJ apontam que 65% das adoções realizadas via busca ativa conseguem preservar os irmãos no mesmo núcleo familiar. Para crianças com deficiência, a plataforma atua como uma vitrine de esperança, aproximando famílias que possuem a estrutura e o desejo de oferecer esse cuidado especializado.
O juiz auxiliar da presidência do CNJ, Hugo Zaher, reforça que a proposta é reduzir a invisibilidade. Ao colocar a tecnologia na palma da mão, o sistema espera superar as barreiras geográficas, permitindo que uma família do Rio Grande do Sul, por exemplo, possa se conectar com a história de uma criança no Amazonas.
Este avanço tecnológico não substitui o rigor do processo legal, mas acelera o encontro de almas. O futuro da adoção no Brasil parece agora mais conectado com a realidade digital, garantindo que o direito fundamental à convivência familiar seja respeitado para todos, independentemente da idade ou condição de saúde.