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Meio Ambiente

A poluição invisível do oceano: microplásticos e contaminantes atingem as profundezas do Brasil

Resíduos industriais e microplásticos atingem 1.500m de profundidade no Brasil. Estudo da USP alerta para o impacto da poluição em ecossistemas remotos.

20 mai 2026 - 10h40 Joice Gomes   atualizado às 10h42
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A poluição invisível do oceano: microplásticos e contaminantes atingem as profundezas do Brasil Pesquisadores identificaram poluentes persistentes e microfibras em peixes e sedimentos a até 1.500 metros de profundidade na Bacia de Santos. (Imagem: gerado por IA)

Resíduos industriais e microplásticos vindos de roupas e plataformas de petróleo já alcançaram 1.500 metros de profundidade na Bacia de Santos, contaminando peixes e o leito marinho em uma área onde a luz solar nunca chega. O achado, documentado por pesquisadores da USP e do Ipen, comprova que a poluição gerada na costa e nas atividades offshore atravessa toda a coluna d'água, transformando o mar profundo em um reservatório silencioso de lixo humano.

A descoberta expõe a presença de microplásticos em invertebrados e de poluentes orgânicos persistentes (POPs) em espécies de peixes que habitam o abismo. O estudo, publicado no Marine Pollution Bulletin, analisou amostras coletadas a cerca de 140 quilômetros da costa paulista, revelando que a distância geográfica não protege os ecossistemas marinhos da pegada industrial. A pesquisa mapeou desde sedimentos até animais como o pepino-do-mar, que desempenham funções vitais no equilíbrio do ecossistema oceânico.

Na prática, isso muda a percepção sobre a preservação oceânica. Esses compostos químicos não se dissolvem e acabam integrados ao organismo de animais que habitam o leito marinho, entrando em um ciclo biológico que pode durar décadas. E é aqui que está o ponto central: a poluição que despejamos hoje terá reflexos por gerações, mesmo em lugares onde o homem jamais pisou.

O que está por trás da contaminação no abismo

Entre os principais vilões identificados estão os PCBs (bifenilas policloradas), usados historicamente como isolantes elétricos, e os PBDEs, aplicados na indústria como retardantes de chamas. Enquanto os sedimentos apresentaram vestígios de PCBs, os peixes coletados, como o Parasudis truculenta e o Neoscopelus macrolepidotus, continham ambas as classes de substâncias em seus organismos, o que sugere um processo de bioacumulação perigoso.

Mas o impacto vai além da química invisível. Os microplásticos, fragmentos de polímeros com menos de 5 milímetros, tornaram-se onipresentes. Nos invertebrados analisados, o destaque negativo foi para o pepino-do-mar Deima validum, um animal detritívoro que limpa o fundo do oceano e acaba ingerindo grandes quantidades de fibras sintéticas no processo, confundindo resíduos com alimento.

Os pesquisadores identificaram poliamida e poliacrilonitrila, comuns na indústria têxtil, mas também polímeros de alta resistência como o poliestireno e o polissulfeto. Estes últimos levantam a suspeita de que a própria infraestrutura offshore da Bacia de Santos possa estar contribuindo diretamente para o despejo desses materiais no entorno. Atualmente, cinco plataformas operam na área, com previsão de expansão para os próximos anos, o que exige um monitoramento mais rigoroso.

O que muda na prática para o meio ambiente

A presença de lixo humano em um ambiente tão inóspito e de difícil acesso quebra a ilusão de que as profundezas do oceano estão protegidas pela distância. O monitoramento dessas áreas é complexo e caro, mas essencial para entender como a poluição de superfície dita o destino de espécies que nunca verão a luz do dia. O mar profundo não é um mundo à parte; ele é o destino final de tudo o que consumimos.

Este achado se soma a outras evidências globais, como o registro histórico de microplásticos na Antártica, reforçando que a pegada ecológica da humanidade é profunda e duradoura. Para os especialistas, o desafio agora é rastrear com precisão a rota desses compostos para mitigar danos em um bioma que ainda estamos começando a conhecer e que já sofre as consequências do nosso estilo de vida urbano.

Em última análise, o fato de animais que vivem a 1,5 quilômetro abaixo da superfície estarem contaminados com borracha sintética e isolantes elétricos é um lembrete severo de que não existe jogar fora. O oceano profundo funciona como o espelho retrovisor de nossas falhas ambientais, mostrando que o impacto das nossas atividades industriais continua vivo, acumulado e perigoso, muito abaixo das ondas.

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