Mulheres bate-bolas Brilhetes de Anchieta inovam no carnaval carioca com fantasias caprichadas e homenagem à escritora Conceição Evaristo em 2026.
(Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Com o carnaval carioca batendo à porta, o grupo bate-bolas Brilhetes de Anchieta guarda um segredo bem guardado: a fantasia que 38 mulheres desfilam nesta sexta-feira, 13 de fevereiro. Após seis meses de confecção manual, o traje promete surpreender nas ruas do subúrbio, ao som de fogos, funk e o característico batucar das bolas de borracha.
Formado exclusivamente por mulheres de idades entre 3 e 58 anos, o bloco surgiu para romper barreiras tradicionais. Professoras, cuidadoras, bombeiras e donas de casa unem forças no barracão, transformando gliter, lacres e buá em peças cheias de personalidade.
A tradição do bate-bolas, ou clóvis, ganha nova cara com essas brincantes. O que antes era domínio masculino agora pulsa com energia feminina, levando a folia para além dos circuitos centrais.
Raízes do grupo e quebra de padrões
Vanessa Amorim, produtora cultural e fundadora do Brilhetes em 2013, explica o nascimento do grupo. "Mulheres sempre ficaram nos bastidores, como mães ou esposas dos bate-bolas. Queríamos ser protagonistas", conta. Hoje, o barracão é ponto de encontro que vira segunda família.
Alexandra Cunha, 44 anos, dona de casa, resume a emoção: "Cada detalhe mexe com a gente". Estreantes como Ana Júlia Guimarães, 17 anos, superam medos da infância e desfilam ao lado da mãe, costurando laços além das fantasias.
O processo inclui pintura manual de máscaras, instalação de LEDs e criação de casacas reluzentes. Cada integrante parcela R$ 150 mensais para custear o kit, que varia de R$ 1,5 mil a R$ 3 mil por pessoa.
- 38 mulheres, de 3 a 58 anos, de profissões diversas.
- Fundado em 2013 por Vanessa Amorim em Anchieta.
- Fantasia inclui macacão, máscara, casaca e buá de morango.
- Financiamento coletivo via contribuições mensais.
História e reconhecimento dos bate-bolas
Desde o início do século XX, os bate-bolas animam o subúrbio carioca, especialmente Santa Cruz. Reconhecidos como patrimônio cultural imaterial em 2012, eles misturam fantasias temáticas, máscaras e o som rítmico das bolas no asfalto.
Caroline Bottino, professora de Turismo da Uerj, valoriza a organização: "Eles se cadastram em editais e participam de bloquinhos na Zona Sul". Ainda assim, o apoio público é mínimo frente ao carnaval turístico do centro.
Grupos como Turma do Brilho e os próprios Brilhetes levam a tradição para novos territórios. A resistência periférica compara-se às escolas de samba comunitárias, mas com menos holofotes e recursos.
Críticas apontam desigualdade nos investimentos municipais, concentrados em áreas nobres. Os bate-bolas seguem firmes, provando que a cultura de rua não depende só de verbas.
- Patrimônio imaterial desde 2012 pela prefeitura do Rio.
- Origem em bairros como Santa Cruz, início do século XX.
- Participação em bloquinhos centrais e concursos.
- Baixo apoio público apesar da relevância cultural.
Tributo especial à Conceição Evaristo
Para 2026, as Brilhetes dedicam o desfile a Conceição Evaristo, escritora que completa 80 anos em novembro. A camiseta do kit exibe sua frase icônica: “eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer”.
O grupo, majoritariamente negro, celebra a escrevivência da autora mineira, professora aposentada de favela. Vanessa destaca: "É preciso homenagear artistas negras em vida". Máscaras pintadas à mão brilham com LEDs e essência de morango.
Temas anteriores reforçam o ativismo: Marilyn Monroe em 2025, mãe natureza em anos idos. Na Terça-feira de Carnaval, elas competem em concursos da Riotur, buscando visibilidade para fantasias periféricas.
O anonimato das máscaras reforça o coletivo sobre o individual. O "cheirinho" de morango vira assinatura olfativa, elemento clássico dos bate-bolas.
- Homenagem aos 80 anos de Conceição Evaristo.
- Frases da escritora nas camisetas do grupo.
- Máscaras com LEDs e pintura artesanal.
- Essência de morango como marca registrada.
Obstáculos e perspectivas futuras
Desafios logísticos marcam a trajetória. As Brilhetes reivindicam inscrições remotas no concurso da Riotur: "É impossível ir presencialmente do subúrbio", justifica Vanessa. Qualidade das fantasias merece mais reconhecimento.
A disparidade de apoio reflete prioridades turísticas, ignorando a periferia. Ainda assim, a união garante saídas múltiplas em bloquinhos e apoio entre turmas vizinhas.
O impacto transcende a festa: empodera mulheres, preserva herança cultural e ocupa espaços públicos. O desfile de 13 de fevereiro pode catalisar novos grupos femininos.
Enquanto o carnaval oficial ganha projeção global, manifestações como os bate-bolas mantêm a essência popular viva. As Brilhetes iluminam Anchieta e desafiam o olhar único sobre a folia carioca.
Essa evolução das tradições mostra a força da periferia em redefinir o carnaval. Com criatividade e persistência, elas garantem que ninguém apague seu brilho.