Unidos da Tijuca vai contar a vida de Carolina Maria de Jesus no Carnaval 2026, destacando sua luta na favela e sucesso literário.
(Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
A Unidos da Tijuca anunciou que o enredo do Carnaval 2026 será dedicado à vida de Carolina Maria de Jesus. A escola carioca abrirá o desfile com a imagem da menina Bitita, nome carinhoso dado pelo avô, evocando raízes moçambicanas e ancestralidade negra.
Nascida em 1914 em Sacramento, Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus enfrentou desde cedo as durezas da vida. Órfã de mãe aos seis anos, migrou para São Paulo nos anos 1940, onde viveu na favela do Canindé e sobreviveu como catadora de papelão.
Com pouca instrução formal, desenvolveu paixão pela escrita. Seus cadernos registravam a miséria, o preconceito racial e as violências cotidianas da favela, material que se tornaria revolucionário quando publicado.
De catadora a fenômeno literário
O ponto de virada veio em 1958, quando um jornalista descobriu seus escritos. Dois anos depois, Quarto de Despejo explodiu nas livrarias: 10 mil cópias vendidas na primeira semana, tradução para 14 idiomas e sucesso em mais de 40 países.
O livro expôs sem filtros a realidade das favelas paulistanas, chocando a classe média. Carolina Maria de Jesus saiu da pobreza extrema, comprou casa própria no Alto de Santana e recebeu prêmios internacionais, como a Ordem Caballero del Tornillo na Argentina.
Além do primeiro sucesso, lançou Casa de Alvenaria, Pedaços da Fome e coletâneas de provérbios. Sua prosa crua e poética deu voz às invisíveis, denunciando desigualdades que ecoam até hoje.
- Carolina Maria de Jesus nasceu em família de ex-escravizados e aprendeu histórias orais do avô Benedito.
- Trabalhou como empregada doméstica antes de se tornar catadora para criar os três filhos sozinha.
- Morreu em 1977, aos 62 anos, deixando um legado de mais de 20 cadernos inéditos.
Enredo que emociona na avenida
O carnavalesco Edson Pereira estruturou o desfile em ordem cronológica. Vários carros alegóricos vão retratar fases da vida de Carolina Maria de Jesus: a doméstica, a mãe solteira, a louca do Canindé, a escritora famosa e a figura carnavalizada.
A terceira alegoria recria Quarto de Despejo com papelão reciclado e materiais da coleta, homenageando sua profissão. O samba-enredo promete versos potentes sobre empoderamento negro e feminino, com setorizado por Audre Lorde e outras autoras.
A escola entra na Sapucaí na noite de segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026, como última do segundo dia do Grupo Especial. Ao lado de Mocidade Independente e Beija-Flor, reforça a tendência de biografias de mulheres e cultura afro no carnaval deste ano.
Relevância em tempos atuais
Escolher Carolina Maria de Jesus vai além da homenagem. Revela como o carnaval carioca recupera histórias apagadas, colocando na vitrine lutas por visibilidade negra e periférica que persistem na sociedade brasileira.
Elisa Fernandes, diretora de carnaval da escola e mulher negra, lidera o projeto com emoção. Implementou suporte psicológico aos integrantes, reconhecendo o peso emocional de contar uma trajetória tão dolorosa e triunfante.
Os ensaios técnicos já exibem fantasias impactantes: borboletas multicoloridas simbolizam transformação, flores gigantes representam florescimento apesar das adversidades. A comunidade da Tijuca abraçou o enredo, vendo nele reflexo de suas próprias histórias.
- Unidos da Tijuca aposta no samba-enredo para emplacar nas rádios e plataformas digitais.
- Outros enredos do Especial 2026 incluem Rita Lee (Mocidade) e Bembé do Mercado (Beija-Flor).
- Grupo Especial reúne 12 escolas em dois dias de desfiles apoteóticos na Marquês de Sapucaí.
Legado que inspira gerações
A trajetória de Carolina Maria de Jesus prova que talento e perseverança rompem barreiras sociais. Seus diários não são só testemunho histórico, mas espelho para questões contemporâneas como racismo estrutural e feminicídio.
O desfile da Unidos da Tijuca pode reacender o interesse por sua obra, impulsionando reedições e adaptações. Universidades e coletivos negros já planejam debates paralelos ao carnaval para discutir seu impacto literário.
Para o futuro, o enredo sinaliza mudança no samba-enredo: menos folclore distante, mais biografias reais que dialogam com o presente. O Carnaval 2026 reforça o papel da festa como palco de transformação cultural e social brasileira.
Com 700 componentes na avenida, a escola carrega expectativa de notas máximas e possível retorno ao grupo de elite. Mais que competição, o desfile celebra uma mulher que transformou lixo em literatura universal.