No Distrito Federal, blocos como Filhas da Mãe e Me chame pelo nome convertem o carnaval em espaço de autocuidado.
(Imagem: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
O carnaval no Distrito Federal ganhou nova dimensão em 2026, saindo do âmbito puramente festivo para se tornar um canal genuíno de autocuidado. Coletivos como Filhas da Mãe, formado por mulheres cuidadoras de pessoas com demência, e Me chame pelo nome, uma fanfarra de pessoas com deficiência, ocuparam as ruas durante o pré-carnaval com mensagens que misturam samba, ritmo e conscientização. Essas iniciativas revelam como a folia pode servir de alívio emocional e plataforma para demandas sociais urgentes.
Filhas da Mãe resgata alegria entre cuidadoras sobrecarregadas
Fundado em 2019, o Coletivo Filhas da Mãe reúne mulheres que lidam diariamente com o cuidado de familiares acometidos por Alzheimer e outras demências. O grupo oferece suporte emocional, oficinas de saúde e espaços de escuta, combatendo o esgotamento que marca a rotina dessas mulheres. No carnaval, elas se transformam em bloco, onde fantasias coloridas e sambas-enredo carregam o lema de que cuidar de si é essencial para continuar cuidando dos outros.
Carmen Araújo, professora de 59 anos e integrante do coletivo, personifica essa jornada. Há 15 anos aos cuidados do pai com Alzheimer, ela encontra no carnaval uma ponte para reviver memórias felizes da infância dele, que sempre amou a festa. "Brincar nos devolve a leveza que perdemos no dia a dia", afirma, destacando como a folia funciona como terapia coletiva contra o adoecimento das cuidadoras.
A psicanalista Cosette Castro, cofundadora do grupo, explica que cerca de 550 pessoas participam das atividades, entre presenciais e online. As cuidadoras enfrentam um quadro alarmante: insônia crônica, ansiedade elevada, hipertensão e até lesões por sobrecarga física. O carnaval surge, então, não como fuga, mas como estratégia intencional de preservação da saúde mental, provando que riso e responsabilidade podem caminhar juntos.
- O bloco promove caminhadas temáticas e exposições educativas sobre diagnóstico precoce de demências durante o ano todo.
- Música e dança são vistas como estimulantes cognitivos, beneficiando tanto cuidadoras quanto pessoas com a doença.
- Campanhas como "Folia com Respeito" integram a programação, reforçando segurança e combate à violência contra mulheres.
Equilíbrio entre folia e responsabilidade no cuidado familiar
Márcia Uchôa, de 69 anos e outra fundadora, cuida da mãe de 96 anos, também com Alzheimer. A matriarca ainda se emociona com músicas e artesanato, o que inspira as cuidadoras a humanizar o processo. Neste ano, Márcia optou por não desfilar por receio de contágios respiratórios, ilustrando o dilema constante: a folia impulsiona o bem-estar, mas exige juízo para não comprometer a saúde dos vulneráveis.
"O carnaval reacende a criança interior e nos lembra que merecemos alegria", reflete Márcia. Sua frase icônica, "a gente precisa se cuidar e o carnaval está dentro da gente", resume a filosofia do coletivo: o cuidado próprio não subtrai do outro, mas o potencializa. Essa visão ganha força nas ruas, onde faixas e cantos ecoam o direito à pausa e à celebração.
O grupo também advoga por políticas públicas que reconheçam o trabalho invisível das cuidadoras não remuneradas, usando o carnaval como megafone para visibilidade. Iniciativas contra feminicídio e assédio nas festas prolongadas complementam a pauta, unindo prazer e ativismo em uma só batida.
Fanfarra Me chame pelo nome quebra barreiras capacitistas
Em paralelo, o coletivo Me chame pelo nome anima o pré-carnaval com uma fanfarra composta por pessoas com deficiência, desafiando estereótipos e conquistando espaço na cultura popular. Sob coordenação de Aline Zeymer, o grupo chega ao segundo ano de desfiles, onde trompetes e percussão misturam-se a corpos diversos, gritando por acessibilidade e respeito.
A proposta transcende a diversão: é uma declaração de presença em espaços historicamente excludentes. "A folia é pública e deve abraçar todos", defende Aline, apontando para a necessidade de rampas, intérpretes de libras e banheiros adaptados em eventos carnavalescos. Internamente, o coletivo fomenta autoestima e autonomia, transformando participantes em protagonistas de sua narrativa.
Os ensaios semanais fortalecem laços e habilidades sociais, enquanto os desfiles públicos derrubam preconceitos. Ritmos animados contrastam com demandas concretas, como comunicação inclusiva em divulgações oficiais e treinamento de seguranças para atendimento sensível à diversidade funcional. Assim, a fanfarra pavimenta um carnaval mais equânime.
- Participantes relatam ganhos em confiança e interação social graças à prática musical coletiva.
- O grupo pressiona por editais públicos que priorizem projetos inclusivos no calendário oficial da folia.
- Parcerias com órgãos de cultura ampliam o alcance, inspirando réplicas em outras praças do país.
Legado do carnaval como agente de transformação social
Esses coletivos comprovam o potencial do carnaval como arena de saúde pública e ativismo. Ao entrelaçar samba com debates sobre demência, sobrecarga feminina e capacitismo, eles educam foliões casuais e policymakers atentos. A visibilidade alcançada impulsiona conversas sobre suporte a cuidadoras e infraestrutura acessível, pautas que transcendem a Quarta-Feira de Cinzas.
Olhando adiante, espera-se que o modelo se espalhe, com blocos tradicionais adotando elementos inclusivos e governos investindo em parcerias. Órgãos como secretarias de saúde e cultura podem formalizar apoios, garantindo continuidade e escala. Para 2027, projeções indicam maior adesão, com potencial para influenciar o carnaval nacional.
No fim, esses grupos redefinem a folia brasileira: não só como explosão de cores e sons, mas como respiro coletivo para quem sustenta a sociedade nas sombras. Cuidadores e pessoas com deficiência, via samba e fanfarra, afirmam seu lugar na festa maior, convidando todos a uma celebração mais humana e justa. O carnaval, assim, pulsa como coração vivo de cuidado e resistência.