O bloco Besa Me Mucho levou música latina ao Morro da Providência no Rio, destacando integração continental e resistência.
(Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
O bloco Besa Me Mucho percorreu as ladeiras do Morro da Providência, no coração do Rio de Janeiro, neste domingo (8), enchendo as ruas de cumbia, salsa e batidas brasileiras. Partindo da escadaria da Rua Costa Barros, na chamada Pequena África, o cortejo reuniu centenas de foliões em uma festa que celebra a diversidade latino-americana e a força das comunidades locais.
Esse evento ganha relevância por ocorrer na primeira favela do Brasil, fundada no início do século XX por ex-escravizados e trabalhadores rurais. O Besa Me Mucho, inspirado na icônica canção mexicana de Consuelo Velásquez, transforma o carnaval em espaço de encontro entre culturas, promovendo laços além das fronteiras nacionais.
Raízes culturais do bloco
Formado por coletivos como o Cortejinho RJ, o bloco Besa Me Mucho surgiu para levar ritmos latinos às vielas da Providência, resistindo à invisibilidade de imigrantes e moradores. Sua essência mistura sucessos como "Bésame Mucho" com adaptações de sambas e forrós, criando um som híbrido que ecoa a herança compartilhada da América Latina.
Os organizadores veem no desfile uma ocupação política das ruas, conectada às tradições do morro, como capoeira e festas religiosas. Essa iniciativa fortalece a coesão social em uma área marcada por intervenções urbanas e desafios históricos, tornando o carnaval ferramenta de empoderamento comunitário.
- Composição majoritária de venezuelanos, espanhóis e brasileiros locais.
- Repertório une clássicos latinos a marchinhas carnavalescas adaptadas.
- Participação em festivais como Honk! Brasil amplia seu alcance cultural.
Debates políticos no cortejo
Além da música, o bloco Besa Me Mucho carrega mensagens sobre migração e unidade latino-americana. Salomé, bióloga venezuelana radicada no Brasil há sete anos, destacou o carnaval como forma de resistência e reivindicação de espaços. Para ela, o continente é uno, e fronteiras não apagam essa conexão essencial.
André Videira de Figueiredo, professor de sociologia e percussionista, descreveu o bloco como um "aglomerado político" pela América Latina livre. Ele enfatiza a responsabilidade dos imigrantes em usar o carnaval para visibilizar pautas comuns, resgatando uma identidade pré-colonial e anticolonial.
O jovem espanhol Andrés Martin, em seu primeiro carnaval no Rio, viu no desfile um ato de liberdade. Ele contrastou a acolhida brasileira com políticas restritivas em outros países, como os Estados Unidos sob Donald Trump, criticando o tratamento a migrantes e famílias.
- Promoção de pertencimento em tempos de tensões migratórias globais.
- Depoimentos de foliões reforçam o papel politizador da festa.
- Sociólogo Rodrigo Freitas chama o evento de resistência ao imperialismo cultural.
Carnaval de rua 2026 em números
O desfile integra o calendário recorde do carnaval carioca, com 432 blocos autorizados pela prefeitura entre 17 de janeiro e 22 de fevereiro. A Riotur divulga a programação via app Blocos do Rio 2026, priorizando segurança com apoio de polícias e bombeiros, após 803 inscrições iniciais.
Megablocos como Bola Preta e Monobloco concentram-se no centro, com 135 desfiles previstos na região. O ano marca 35 estreias, incluindo incentivos culturais que diversificam a cena, revelando a vitalidade do carnaval como expressão popular autêntica.
Participantes como o empresário Michael Pinheiro e o editor Felipe Eugênio Santos e Silva celebram como a festa expõe a alma brasileira ao mundo. Para eles, o carnaval politiza e une, funcionando como canal de diálogo global sobre identidade e resistência.
- Centro da cidade lidera com maior número de apresentações.
- Normas rígidas garantem operação segura dos eventos.
- 35 novos blocos injetam frescor na programação anual.
Legado e perspectivas futuras
O bloco Besa Me Mucho desafia visões isolacionistas do Brasil, provando que a América Latina pulsa unida nas periferias. Economicamente, impulsiona o comércio local e turismo cultural, enquanto socialmente fortalece laços em comunidades resilientes como a Providência.
Espaços como a Galeria Providência complementam essas ações, preservando memória e fomentando arte. O evento sinaliza que o carnaval evolui para além da folia, tornando-se arena de debates urgentes sobre inclusão e soberania cultural.
Com dezenas de blocos ainda por vir, o carnaval 2026 promete continuidade dessa efervescência. Iniciativas como o Besa Me Mucho inspiram uma visão integrada do continente, convidando à reflexão sobre o que une povos além das diferenças impostas.