Conheça os detalhes, estatísticas e como baixar o material gratuito agora.
(Imagem: Joédson Alves/Agência Brasil)
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) trouxe ao público uma ferramenta poderosa de conscientização: a cartilha Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer. Lançada recentemente, ela conecta os rituais sagrados dos terreiros de religiões afro-brasileiras aos protocolos médicos modernos, focando nos cânceres que mais impactam esse grupo.
O material gratuito aborda câncer de mama, colo de útero e intestino grosso, os mais incidentes entre mulheres negras. Com ilustrações vibrantes e linguagem coloquial, explica fatores de risco, como sedentarismo e tabagismo, e a proteção de práticas como amamentação prolongada.
Distribuída em PDF, disponível na internet, a cartilha circula por terreiros e comunidades, promovendo exames preventivos em fases da vida: mamografia a partir dos 40, citologia oncótica anual e colonoscopia após os 50 anos. É um chamado ao autocuidado enraizado na cultura.
Parceria com terreiros do Rio impulsiona criação
O projeto nasceu de diálogos profundos nos terreiros Ilê Axé Obá Labí, em Pedra de Guaratiba, e Ilê Axé Egbé Iyalodê Oxum Karê, em Nova Iguaçu. De 2023 a 2025, pesquisadores do Inca mergulharam nesses espaços para captar sabedorias ancestrais sobre corpo e saúde feminina.
Iyá Katiuscia de Yemanjá, liderança do Obá Labí, contribuiu diretamente na redação. Ela enfatiza que banhos de ervas e orientações das yabás sempre guiaram o bem-estar das mulheres negras, sobrecarregadas pelo trabalho informal e família.
"No terreiro, saúde é equilíbrio de corpo e ori. Essa cartilha leva isso para a prevenção científica", compartilha a sacerdotisa, que mantém portas abertas para consultas populares gratuitas sobre ervas e hábitos saudáveis.
Desigualdades raciais agravam a doença
Mulheres negras enfrentam barreiras invisíveis: racismo estrutural e religioso atrasam diagnósticos. Dados mostram mortalidade por câncer de mama três vezes maior nesse grupo, com tumores mais agressivos detectados em estágios avançados.
- 60% mais risco de morte específica por câncer de mama em negras versus brancas.
- Diagnóstico tardio em 60,1% dos casos para negras, contra 50,6% em não negras.
- 76% dos terreiros sofrem violência por racismo religioso, impactando acesso à saúde.
Mãe Nilce de Iansã, da Renafro, denuncia preconceitos em hospitais: nomes religiosos ridicularizados ou proibições de contas de proteção. Vítima de câncer de pulmão curada no Inca, ela alerta para o mito da "dor suportada" que adia consultas.
A cartilha desmistifica isso, mostrando como práticas de terreiro complementam a medicina, como chás calmantes pós-quimioterapia ou círculos de apoio emocional durante o tratamento.
Dicas práticas para prevenção diária
O foco está na ação: vacinação contra HPV aos 9-45 anos previne 70% dos cânceres de colo de útero. Alimentação rica em fibras reduz riscos intestinais, enquanto atividade física diária fortalece contra o de mama.
Sinais de alerta incluem nódulos mamários, sangramentos vaginais anormais e mudanças intestinais persistentes. A publicação incentiva rodas de conversa nos terreiros para disseminar esses alertas coletivamente.
No Brasil, estima-se 73 mil novos casos de mama por ano, com 51,2% das mortes por colo de útero em negras. Iniciativas como essa visam inverter essa realidade, valorizando a prevenção do câncer em mulheres negras.
Como obter e multiplicar o impacto
Baixe a cartilha no site do Inca ou repositórios oficiais. Ideal para agentes comunitários de saúde e lideranças religiosas, ela promove diálogo entre ciência ocidental e saberes de matriz africana.
Terreiros, refúgios contra intolerância, tornam-se frentes de prevenção. Essa união ancestral-moderna prova que combater o câncer exige acolhimento cultural, reduzindo iniquidades e salvando vidas com equilíbrio espiritual.