Amazônia Negra ganha destaque no carnaval 2026 com o enredo da Mangueira sobre Mestre Sacaca.
(Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)
No carnaval 2026, a Estação Primeira de Mangueira vai transformar a Avenida Marquês de Sapucaí em um portal para os mistérios da Amazônia Negra. A escola escolheu um enredo que celebra Mestre Sacaca do Encanto Tucuju, figura lendária do Amapá que une curadoria, folia e defesa da floresta. Essa narrativa afro-indígena promete ser um dos destaques do Grupo Especial.
A homenagem ganha ainda mais peso por coincidir com o triênio do centenário da agremiação. A Verde e Rosa, conhecida por sua raiz popular, resgata tradições do extremo Norte brasileiro. É uma ponte cultural que leva o marabaixo e os rituais tucujus para o coração do Rio de Janeiro.
A quadra da Mangueira vibrou com o anúncio do samba-enredo vencedor. Milhares de torcedores cantaram junto o hino que invoca o curandeiro. A emoção transborda, misturando orgulho mangueirense com gratidão amapaense.
Quem foi Mestre Sacaca?
Mestre Sacaca representa a essência da Amazônia Negra: um xamã babalaô que dominava os segredos da mata. Nascido no Amapá, ele aprendeu com povos indígenas como Galibi Kali’na, Palikur e Wajãpi. Sua vida entre quilombos e ribeirinhos o transformou no guardião dos encantos tucujus.
O enredo divide-se em cinco setores que recriam sua trajetória. Começa com o Turé, ritual de louvor aos ancestrais na floresta densa. Depois, explora os rios como Oiapoque e Jari, onde Sacaca navegou trocando saberes com indígenas e negros.
A cura é o terceiro ato: garrafadas, benzimentos e plantas medicinais saem das palafitas para as alegorias. Tambores ecoam no quarto setor, com batuque, marabaixo e festas tradicionais como o Sairé do Carvão. Finalmente, Sacaca vira elementos da natureza: amapazeiro, onça e jenipapo.
- Ritual Turé: conexão espiritual com orixás e ancestrais na selva.
- Rios e povos: encontros entre quilombolas, ribeirinhos e indígenas.
- Segredos medicinais: ervas, raízes e rezas que salvam vidas.
- Festas e ritmos: marabaixo, caxixis e tambores ancestrais.
- Transfiguração: Sacaca se funde à Amazônia em forma animal e vegetal.
Samba-enredo vencedor emociona
O samba número 15, de Pedro Terra, Tomaz Miranda, Joãozinho Gomes, Paulo César Feital, Herval Neto e Igor Leal, conquistou a Nação. Gravado com o intérprete Douglas Diniz, ele abre com “Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá / Na Estação Primeira do Amapá”. A letra tece a ponte perfeita entre favela e floresta.
Seis composições vieram direto do Amapá, após festival regional apoiado pelo governo local. O governador Clécio Luís e a secretária Clícia Vieira aplaudiram de pé. Referências a Yá Benedita de Oliveira, benzedora do morro, abençoam o “jeito tucuju” que invade a Sapucaí.
“Salve o curandeiro, doutor da floresta / Preto velho, saravá” vira refrão avassalador. O hino mistura caxixi com tamborim, eternoizando a Amazônia Negra. É samba que educa, enquanto empolga, fiel à essência mangueirense.
Detalhes do desfile na Sapucaí
A Mangueira entra na noite de domingo, 15 de fevereiro de 2026, como quarta agremiação do Grupo Especial. Antecedida por Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense e Portela, a escola tem tempo para polir cada carro alegórico. Fantasias recriam pakará, saias de buriti e palafitas flutuantes.
A comissão de frente, com Daniel e Taciana, dá vida à Amazônia Negra no Manguebeat. Protótipos de alas já circulam nas redes, mostrando urucum, jenipapo e penas vibrantes. Ensaios na quadra lotam com amapaenses radicados no Rio.
Presidenta Guanayra Firmino e vice Moacyr Barreto comandam os preparativos. O sonho do título pulsa forte, com o enredo reforçando o DNA da escola: defesa do povo negro e indígena. Verde e rosa tingem a avenida de brasilidade nortista.
Legado cultural da homenagem
Esse enredo joga luz sobre o Amapá, estado rico em cultura subnotificado. Tradições como Missa dos Quilombos e Encontro dos Tambores saem do anonimato. A Mangueira educa 70 mil pessoas na Sapucaí sobre a força da Amazônia Negra.
Pesquisa impecável, de Sidnei França, Felipe Tinoco e Sthefanye Paz, evita estereótipos. Alas “engarrafam” curas e navegam o Uaçá em jangadas estilizadas. É carnaval que transcende folia, virando aula de história viva.
A Verde e Rosa cumpre sua sina: exaltar o esquecido. Do morro ao quilombo, o transe coletivo une nações. No carnaval 2026, Sacaca guia a Mangueira ao encanto eterno, provando que samba-enredo transforma realidade.