O professor Luiz Augusto Campos, coordenador do núcleo Dara da Uerj, alerta para retrocesso no acesso a dados sobre igualdade racial no país.
(Imagem: Marcello Casal jr/Agência Brasil)
A criação do núcleo Dara (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo), capitaneado por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), expõe uma contradição histórica no país: embora o Brasil seja um dos líderes globais na produção de estudos sobre desigualdade, ainda falha criticamente ao mensurar de que forma o racismo opera como o motor invisível dessas disparidades.
Essa lacuna metodológica não é apenas um detalhe técnico, mas um obstáculo real para o desenvolvimento de políticas públicas eficazes. Sem dados precisos sobre como a discriminação barra a ascensão de pessoas negras, o debate público muitas vezes fica vulnerável a discursos que tentam minimizar o peso do preconceito estrutural na sociedade.
Na prática, isso muda mais do que parece. Em vez de apenas registrar estatísticas de renda e escolaridade, o novo centro de pesquisas, vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp/Uerj), quer mapear os mecanismos exatos pelos quais o racismo se reproduz no cotidiano.
O que está por trás do apagão de dados sobre o racismo
De acordo com o sociólogo Luiz Augusto Campos, coordenador-geral do Dara, o Brasil enfrenta um cenário preocupante de retrocesso no acesso a microdados públicos essenciais. Essa dificuldade de integração de dados oficiais asfixia a capacidade de planejar soluções estruturais de longo prazo e monitorar seus resultados reais.
Além disso, as pesquisas de opinião pública existentes sobre o tema costumam funcionar de forma isolada, sem diálogo metodológico entre si. Diante desse cenário fragmentado, um dos primeiros passos do Dara será integrar essas diferentes bases para construir uma linha do tempo comparativa e confiável sobre a percepção do racismo no país.
A diferença crucial entre medir desigualdade e mapear o preconceito
Mas o impacto vai além do diagnóstico. É preciso entender a diferença fundamental entre registrar a desigualdade e identificar suas causas reais. Enquanto o IBGE e outras instituições mensuram com precisão as disparidades de renda, comprovar cientificamente como as práticas racistas produzem esses abismos sociais exige ferramentas muito mais sofisticadas.
É aqui que está o ponto central do projeto: a introdução de pesquisas experimentais, especialmente os experimentos de campo. Muito comuns no exterior, esses testes simulam situações reais como o envio de currículos idênticos com nomes associados a diferentes perfis raciais para comprovar, estatisticamente, onde e como a discriminação acontece no mercado de trabalho e em outras esferas.
Por que isso importa agora e o que pode acontecer a partir disso
O nascimento do Dara carrega também uma carga simbólica potente. A maior parte de sua equipe de 18 profissionais é negra, refletindo o próprio sucesso histórico das políticas de ação afirmativa que abriram as portas das universidades públicas brasileiras nas últimas décadas.
Essa diversidade de trajetórias reconfigura a produção científica nacional, trazendo novos questionamentos e prioridades para a mesa de debate acadêmico. Com dados metodologicamente blindados contra contestações ideológicas, o país ganha um escudo científico para defender e aprimorar as políticas de equidade.
O futuro das ações de reparação histórica no Brasil dependerá diretamente dessa transição da intuição para a evidência concreta. Ao estruturar métricas rigorosas, o Dara não apenas desmascara as engrenagens da exclusão, mas fornece as chaves necessárias para que o poder público possa, finalmente, desmontá-las.