Barragem de contenção em área de mineração sob monitoramento técnico.
(Imagem: Antonio Cruz/ Agência Brasil)
O Brasil convive hoje com uma ameaça silenciosa que se espalha por 19 estados e pelo Distrito Federal: exatamente 213 barragens estão em situação crítica e apresentam risco iminente de acidentes. O dado, revelado pelo Relatório de Segurança de Barragens (RSB 2026) da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), acende um alerta urgente sobre a segurança de barragens no país e a integridade de comunidades inteiras.
Mais do que simples números em uma planilha, essas estruturas comprometidas estão próximas a estradas, pontes e áreas povoadas, o que significa que um colapso teria consequências humanas e econômicas imediatas. Em 2025, o país registrou 18 acidentes e 23 incidentes com barragens, que, embora não tenham deixado vítimas fatais, forçaram evacuações de emergência e destruíram vias de transporte essenciais.
A situação é agravada por um apagão de informações que impede o planejamento preventivo adequado das autoridades. Na prática, o perigo vai muito além das estruturas já identificadas como críticas.
O que está por trás do apagão de dados
O relatório aponta que o Brasil possui quase 30 mil barragens cadastradas, mas impressionantes 14.355 delas (cerca de 48%) continuam com a situação classificada como "indefinida". Isso ocorre porque os órgãos responsáveis pelo cadastro não enviaram as informações básicas necessárias para enquadrá-las na Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB).
Sem esses dados essenciais, como a capacidade do reservatório ou o potencial de dano em caso de rompimento, é impossível saber quais dessas milhares de estruturas representam um perigo real e imediato para a população.
Como isso afeta a segurança no dia a dia
Das barragens que já foram devidamente avaliadas pelas autoridades, o cenário também exige atenção redobrada. Cerca de 6.609 estruturas apresentam alto potencial de dano associado ou risco elevado, refletindo a negligência de empreendedores que descumprem as normas básicas de prevenção e manutenção.
O setor de mineração lidera o ranking de preocupação, concentrando 26% das estruturas prioritárias para fiscalização. Em seguida, aparecem as barragens voltadas ao abastecimento público de água (24%) e à irrigação agrícola (14%), mostrando que o problema atinge desde a economia até os serviços mais essenciais do cotidiano brasileiro.
A queda inédita na fiscalização desde Brumadinho
E é aqui que está o ponto central e mais preocupante do relatório: pela primeira vez desde a tragédia humanitária e ambiental de Brumadinho, em 2019, o número de profissionais dedicados à fiscalização de barragens registrou queda no país.
Atualmente, são apenas 333 profissionais atuando nessa área em 33 órgãos fiscalizadores e menos da metade deles trabalha com dedicação exclusiva à função. O déficit estimado para atingir as equipes mínimas recomendadas é de pelo menos 221 especialistas.
Embora os fiscais em atividade tenham aumentado o volume de vistorias por meio de auditorias documentais, a falta de braços em campo enfraquece a capacidade de prevenir desastres de forma ativa e presencial.
O que pode acontecer a partir de agora
A manutenção desse cenário de escassez de pessoal e falta de transparência por parte dos empreendedores projeta um futuro de incertezas para as comunidades que vivem no entorno dessas estruturas. A cobrança por uma estruturação robusta e punições mais severas para quem descumpre a legislação torna-se, portanto, inevitável para evitar novas tragédias.
O Relatório de Segurança de Barragens agora segue para análise do Congresso Nacional e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos. O documento serve como um mapa de riscos que o poder público não pode ignorar, sob pena de ver a história se repetir onde menos se espera.