Americanas protocolou pedido de encerramento da RJ na 4ª Vara Empresarial do RJ.
(Imagem: Bruno Peres/Agência Brasil)
O Grupo Americanas deu um passo decisivo rumo à normalidade financeira ao protocolar, nesta semana, pedido de encerramento do processo de recuperação judicial na 4ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Rio de Janeiro.
Iniciada em janeiro de 2023 diante de um rombo contábil de R$ 20 bilhões, a recuperação abrangeu dívidas totais entre R$ 43 bilhões e R$ 50 bilhões, envolvendo cerca de 16 mil credores de todas as empresas do conglomerado, dentro do prazo legal de dois anos.
De rombo bilionário à reestruturação
Tudo começou em 11 de janeiro de 2023, quando a companhia revelou inconsistências em lançamentos contábeis de exercícios anteriores, disparando as dívidas para R$ 40 bilhões e derrubando as ações (AMER3) mais de 70% na B3 em um só dia.
O pedido de RJ foi deferido logo no dia 19, suspendendo cobranças judiciais e abrindo caminho para um plano de reestruturação que ganhou apoio inicial de credores com 35% do passivo, saltando para 91% na assembleia de dezembro de 2023.
Homologado em fevereiro de 2024 pelo juiz Paulo Assed Estefan, o plano incluiu aportes de R$ 12 bilhões de pesos-pesados como Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles, além de quitação prioritária de dívidas trabalhistas (R$ 89,2 milhões) e com micro e pequenas empresas (R$ 180,2 milhões) em 30 dias.
Alienação de ativos acelera desendividamento
Para enxugar o balanço, a Americanas promoveu leilões de unidades de negócios não essenciais, com destaque para a UPI Uni.Co, dona de marcas como Imaginarium e Puket, cujo lance mínimo era de R$ 152 milhões.
Recentemente, a juíza Caroline Rossy Brandão Fonseca homologou a venda à Fan Store Entretenimento (BandUP!) por R$ 152,9 milhões – R$ 20 milhões à vista e o restante em cinco parcelas corrigidas pelo CDI –, rejeitando a oferta da Solver Soluções Críticas (R$ 155 milhões), por falha no envelope lacrado, reforçando a lisura do processo.
A companhia chegou a questionar a decisão para priorizar o valor à vista, mas a homologação transfere as ações livres de ônus, alinhada ao plano de recuperação e ajudando a cumprir metas de redução de endividamento.
Resultados mistos e sinais de recuperação
O impacto da crise foi severo: em 2023, a receita líquida despencou 42,1%, para R$ 14,9 bilhões, com prejuízo de R$ 2,27 bilhões, explicado por custos judiciais, investigações e provisões, embora atenuado por créditos tributários.
No segundo trimestre de 2025, porém, veio o primeiro EBITDA positivo, sob comando do CEO Leonardo Coelho, CFO Camille Faria e COO Fernando Soares, que priorizam rentabilidade, transformação digital e eficiência operacional.
O Comitê Independente de Investigação encerrou apurações em julho de 2024, apontando fraudes por diretores desligados, enquanto assessores como Rothschild & Co e Alvarez & Marsal gerenciaram o processo, com monitoramento mensal dos credores até o fim de 2024.
O que muda com o fim da RJ
Se aprovado nas próximas semanas, o encerramento libera a Americanas de amarras judiciais, permitindo foco total em e-commerce e lojas físicas, competindo com gigantes como Magazine Luiza, Via e Amazon no varejo brasileiro.
Credores tiveram opções atrativas no plano: ações, bônus de subscrição, PDIs (Pagamentos Diretos aos Intermediários) e parcelamentos, com homologações de aumentos de capital em julho de 2024 para viabilizar as trocas de dívida por equity.
- Marco temporal: Jan/2023 (rombo revelado), Dez/2023 (plano aprovado), Fev/2024 (homologado), Mar/2026 (pedido de fim).
- Dívidas totais: R$ 50,1 bilhões reestruturados em classes, com pagamentos variados e priorização de quirografários.
- Ativos vendidos: Uni.Co (R$ 152,9 mi), negociações em andamento para HNT, Ame Digital e outras unidades.
- Investidores chave: 3G Capital aportou R$ 12 bi; credores recuperam via equity e cash flow futuro.
Esse desfecho não só alivia o grupo, mas sinaliza maturidade no mercado de capitais brasileiro, onde recuperações judiciais viraram ferramenta comum para gigantes em crise, como Oi e Varig no passado.
A Americanas agora aposta em um varejo híbrido, com lojas reformuladas e plataformas digitais fortalecidas, mas precisa navegar inflação persistente, alta de juros e ascensão do comércio eletrônico, onde a classe C impulsiona o consumo.
O caso expõe fragilidades na governança corporativa do setor, reforçando a necessidade de auditorias independentes e transparência, lições que ecoam para outras varejistas em um Brasil de renda volátil.
Analistas monitoram os próximos balanços para confirmar a virada, com o mercado de ações reagindo positivamente ao pedido – ações subiram em torno de 5% nesta quinta-feira (26). O futuro depende de execução impecável e confiança reconquistada.
Enquanto a Justiça delibera, a companhia promete atualizações regulares no site de Relações com Investidores, mantendo credores e acionistas informados sobre cada etapa final.