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Saúde

Cigarros com sabor: a armadilha que está criando uma nova geração de dependentes no Brasil

O INCA alerta para a estratégia da indústria da nicotina de atrair jovens com cigarros com sabor, gerando custos de R$ 153 bilhões ao Brasil em tratamentos.

30 mai 2026 - 14h12 Joice Gomes   atualizado às 14h13
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Cigarros com sabor: a armadilha que está criando uma nova geração de dependentes no Brasil INCA alerta para os riscos de cigarros com sabor e aroma entre jovens. (Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

O tabagismo no Brasil deixou de ser uma preocupação focada apenas na saúde de adultos para se transformar em uma crise geracional silenciosa. Com o uso estratégico de sabores e aromas, a indústria do tabaco conseguiu o que parecia impossível após décadas de combate: tornar o vício novamente atrativo para crianças e adolescentes. O alerta vem do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que aponta uma mudança de paradigma onde o produto não é mais apenas o cigarro convencional, mas um ecossistema tecnológico desenhado para capturar novos usuários.

Segundo o diretor-geral do INCA, Roberto Gil, o país enfrenta hoje uma ofensiva de produtos que, por definição, jamais deveriam estar no mercado. A desinformação ainda é o maior combustível para o consumo de dispositivos eletrônicos e cigarros flavorizados. Na prática, o que era uma luta contra o fumo tradicional tornou-se uma batalha complexa contra a nicotina sintética, sais de nicotina e dispositivos que disfarçam a toxicidade sob uma fachada de modernidade e frescor.

A gravidade da situação se reflete nos números: dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) revelam que cerca de 2,6 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos já consomem tabaco no continente americano. Desse total, dois milhões são usuários de cigarros eletrônicos, os populares vapes e pods. Mas o impacto vai além do dano individual à saúde; as projeções indicam que o Brasil pode gastar até R$ 153 bilhões anuais para tratar doenças decorrentes desse hábito.

O que muda na prática com os aditivos de sabor

A estratégia da indústria é clara: tornar a iniciação ao fumo o menos agressiva possível. Aditivos que conferem sabores doces, refrescantes e aromas agradáveis mascaram o gosto real do tabaco e a irritação causada pela fumaça. Isso remove a barreira natural de repulsa que um jovem teria ao primeiro contato com o cigarro comum. Ao transformar o ato de fumar em algo palatável e até divertido, o mercado garante que futuras gerações fiquem presas à dependência química precocemente.

E é aqui que está o ponto central da discussão regulatória. Desde 2012, a Anvisa proíbe esses aditivos através da RDC 14/2012, mas a norma é alvo constante de ataques jurídicos. A indústria alega que a proibição inviabilizaria a produção nacional, um argumento que foi recentemente refutado por um estudo científico publicado na revista Tobacco Control. A pesquisa demonstrou que metade das marcas registradas no Brasil em 2025 já não utilizava os aditivos vetados, provando que a resistência é puramente comercial, e não técnica.

O que pode acontecer a partir da decisão do STF

Para o INCA, a palavra final precisa vir do Supremo Tribunal Federal (STF). A consolidação da validade nacional da norma da Anvisa é considerada o único caminho para impedir que novas liminares mantenham esses produtos nas prateleiras. Sem uma barreira jurídica sólida, o tabagismo corre o risco de ser consolidado como uma "doença pediátrica", termo usado por especialistas para descrever como o vício tem atingido majoritariamente pessoas com menos de 20 anos.

O cenário futuro depende de uma vigilância rigorosa não apenas do governo, mas também de profissionais de saúde, como pediatras, e das famílias. A prevenção da iniciação é, hoje, a única forma eficaz de evitar que o sistema de saúde entre em colapso sob o peso de doenças crônicas como câncer, diabetes e problemas cardiovasculares em populações cada vez mais jovens. O desafio está posto: desmascarar o apelo tecnológico e sensorial para proteger o futuro da saúde pública brasileira.

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