Alunos do projeto Flautistas da Marambaia em atividade prática no Sítio Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro.
(Imagem: Andrea Nestrea/ Divulgação)
Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, uma iniciativa inovadora está transformando a realidade de dezenas de estudantes ao unir a prática de instrumentos musicais à preservação dos manguezais. O projeto Flautistas da Marambaia, que agora realiza suas atividades no Sítio Roberto Burle Marx, Patrimônio Mundial da Unesco, prova que a arte e a consciência ecológica podem caminhar de mãos dadas para gerar impacto social imediato.
Ao aproximar crianças e jovens de Barra de Guaratiba da riqueza de seu ecossistema local, a iniciativa preenche uma lacuna histórica de acesso à cultura e combate um preconceito silencioso: a ideia de que o mangue é apenas um espaço sujo e sem valor. Na prática, como mostram as atividades do projeto, esse bioma é vital para a regulação do clima e para a sobrevivência de grande parte da vida marinha.
Essa conexão direta com o território ganha ainda mais força com a parceria do Laboratório de Geografia Marinha e Gestão Costeira Integrada da UFRJ (GeoMarinha). Juntos, os estudantes realizam visitas de campo guiadas, nas quais aprendem a identificar as espécies de mangue e a compreender a importância ecológica do espaço que muitas vezes começa no quintal de suas próprias casas.
O que muda na prática para os estudantes
A experiência de tocar um instrumento clássico em meio a uma paisagem inspiradora altera profundamente a percepção de mundo desses jovens. Mais do que aprender acordes de compositores como Dorival Caymmi, Tom Jobim e Gilberto Gil, eles redescobrem a dignidade de sua própria região.
A geógrafa e professora Flavia Lins de Barros, coordenadora do GeoMarinha/UFRJ, destaca uma mudança clara no comportamento dos estudantes ao longo do tempo. Segundo ela, ao dominarem o conhecimento técnico sobre o manguezal, os jovens passam de uma atitude tímida para um sentimento de legítimo orgulho de pertencer àquela região.
Por que a proteção ao manguezal importa agora
Apesar de frequentemente desvalorizados pela sociedade, os manguezais desempenham um papel crítico no combate às crises climáticas globais. Eles são altamente eficientes no sequestro de carbono e atuam como barreiras naturais contra a erosão costeira, protegendo as comunidades das ressacas oceânicas.
Além disso, cerca de 70% da vida marinha depende desse ecossistema para desovar e se alimentar. Entender essa dinâmica transforma os alunos em verdadeiros multiplicadores de conhecimento dentro de suas famílias, muitas das quais tiram seu sustento diretamente da pesca e da catação de caranguejos.
O que está por trás da expansão do projeto
Criado originalmente em 2002 pela professora Claudia Ernest Dias na Escola Municipal Professor Vieira Fazenda, o Flautistas da Marambaia já beneficiou mais de 1.200 crianças e jovens. Atualmente, com a transferência de suas aulas para o Sítio Roberto Burle Marx e a parceria com o Iphan, o projeto ampliou seu alcance para diversas outras escolas municipais da Zona Oeste carioca.
Reconhecido internacionalmente pela Unesco como parte da Década da Ciência Oceânica, o projeto conta hoje com o apoio da iniciativa privada e de leis de incentivo para manter suas oficinas de flauta, canto e expressão cênica totalmente gratuitas. Esse esforço conjunto sinaliza que o caminho para o desenvolvimento sustentável começa com a união entre a ciência, a comunidade e a sensibilidade da arte.