Pessoa deitado na cama.
(Imagem: Freepik)
Dormir oito horas por noite já foi sinônimo de saúde e disposição. Hoje, porém, um número crescente de pessoas relata acordar cansada, mesmo após noites aparentemente bem dormidas.
O fenômeno do cansaço persistente — físico e mental — tornou-se um dos sintomas mais comuns da vida contemporânea e levanta uma pergunta inquietante: por que estamos tão exaustos mesmo descansando mais?
Dormir mais não significa dormir melhor
O primeiro ponto está na qualidade do sono. Embora muitas pessoas tenham aumentado o tempo total dormido, especialmente após a pandemia, isso não garante um descanso reparador. Interrupções frequentes, sono superficial e dificuldade em atingir fases profundas comprometem a recuperação do corpo e do cérebro.
O uso excessivo de telas antes de dormir é um dos principais responsáveis. A luz azul emitida por celulares, tablets e computadores interfere na produção de melatonina, hormônio essencial para regular o ciclo do sono. O resultado é um descanso fragmentado, que não restaura a energia necessária para o dia seguinte.
Exaustão mental virou regra, não exceção
Outro fator central é o cansaço mental. Mesmo em repouso físico, o cérebro continua em estado de alerta constante. Notificações, excesso de informações, pressão por produtividade e a sensação de estar sempre “atrasado” mantêm a mente em atividade contínua.
Esse estado, conhecido como hiperestimulação cognitiva, impede o verdadeiro desligamento. Dorme-se, mas não se descansa. A mente segue processando preocupações, listas de tarefas e cobranças — muitas vezes de forma inconsciente.
Trabalho sem fronteiras e descanso fragmentado
A popularização do trabalho remoto e híbrido trouxe flexibilidade, mas também apagou limites claros entre vida pessoal e profissional. Responder e-mails à noite, pensar em demandas fora do expediente e sentir-se permanentemente disponível gera um tipo de fadiga acumulativa.
Mesmo durante o sono, o corpo permanece em estado de vigilância, o que dificulta a recuperação plena. O descanso deixa de ser contínuo e passa a ser interrompido emocionalmente.
Estresse crônico e inflamação silenciosa
O estresse prolongado afeta diretamente os níveis de cortisol, hormônio ligado ao estado de alerta. Quando elevado por longos períodos, ele prejudica o sono profundo, altera o metabolismo e contribui para dores musculares, fadiga constante e sensação de esgotamento.
Além disso, estudos associam o cansaço persistente a processos inflamatórios de baixo grau no organismo, frequentemente ligados ao estilo de vida moderno: sedentarismo, alimentação pobre, ansiedade e privação emocional.
A fadiga emocional da vida moderna
Há ainda um cansaço menos visível, mas igualmente poderoso: o emocional. Insegurança econômica, excesso de escolhas, pressão social e comparação constante nas redes sociais drenam energia psíquica. Mesmo sem esforço físico, lidar com essas demandas gera desgaste profundo.
Nesse contexto, dormir mais funciona como um paliativo, não como solução. O corpo repousa, mas o sistema emocional permanece sobrecarregado.
Repensar descanso é urgente
Especialistas defendem que combater o cansaço atual exige mais do que dormir mais horas. É preciso melhorar a qualidade do sono, reduzir estímulos digitais, estabelecer limites claros entre trabalho e vida pessoal e investir em pausas reais durante o dia.
O esgotamento moderno não é preguiça nem falta de disciplina. É um sinal de que o modelo de vida atual exige mais energia do que conseguimos repor — mesmo com os olhos fechados.