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Autismo

Mulheres carregam principal responsabilidade no cuidado a autistas no Brasil, confirma novo estudo

02 abr 2026 - 09h39 Joice Gomes
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Mulheres carregam principal responsabilidade no cuidado a autistas no Brasil, confirma novo estudo Mães lideram cuidados com autismo no Brasil: 86% são responsáveis primários, segundo pesquisa recente. (Imagem: Ilustração/Simbolo Autismo)

Uma pesquisa lançada em abril de 2026 expõe a realidade dura vivida por famílias brasileiras com Transtorno do Espectro Autista (TEA): as mulheres, sobretudo mães, assumem 86% da carga de cuidados diários. O levantamento evidencia não só o protagonismo feminino, mas também os impactos profundos na saúde mental e na vida profissional dessas cuidadoras.

Com cerca de 2,4 milhões de brasileiros afetados pelo TEA, conforme projeções baseadas em dados da OMS, o suporte familiar se torna essencial na ausência de políticas públicas robustas. Mães coordenam terapias, lidam com crises comportamentais e adaptam rotinas, frequentemente sacrificando carreiras e momentos de lazer pessoal.

Realidade das cuidadoras primárias

O estudo confirma que, entre crianças de 0 a 12 anos com TEA, 86% têm mães como principais responsáveis pelos cuidados. Os 14% restantes se dividem entre pais (10%) e outros parentes (4%). Essa divisão ocorre independentemente de renda familiar ou nível educacional, revelando um padrão cultural enraizado.

Camila Nogueira ilustra essa trajetória comum. Formada em Publicidade, recusou uma vaga no Rio de Janeiro quando seu filho Miguel, hoje com 16 anos, recebeu o diagnóstico. Há mais de uma década dedicada exclusivamente aos cuidados, ela agora orienta outras famílias enquanto gerencia as necessidades diárias do jovem.

Giselle, profissional do setor fiscal em multinacional, exemplifica a dupla jornada. Durante a pandemia, o home office permitiu conciliar emprego das 8h às 18h com terapias e escola do filho Matheus. Ainda assim, admite: "Juntei o trabalho com tudo que o diagnóstico trouxe", evidenciando o desgaste constante.

Principais dificuldades enfrentadas

Entre os obstáculos, 68% das cuidadoras citam falta de tempo para descanso como o maior problema. A insegurança sobre o futuro da criança autista preocupa 79% delas, enquanto 73% enfrentam barreiras financeiras para custear terapias especializadas. Esses dados agravam o estresse crônico no grupo.

Um em cada três cuidadores (36%) carrega sentimento de culpa pelo TEA do filho, sendo 89% mulheres nessa situação. Esse peso emocional remete a teorias ultrapassadas, como a "mãe-geladeira" proposta por Leo Kanner nos anos 1940, que associava frieza materna ao transtorno – conceito hoje refutado pela ciência.

Luciana Habermann, mãe de Alice, devorou 13 livros sobre autismo após o diagnóstico, recebido durante sua segunda gravidez. Frustrada com uma clínica terapêutica sem resultados, abandonou o atendimento e criou a ONG FASA, oferecendo acolhimento a famílias em situação similar à sua.

Dados estatísticos reveladores

O panorama fica mais complexo ao considerar adultos autistas: 24,2% deles atuam como cuidadores de outros membros da família com TEA, sugerindo forte influência genética. Entre as comorbidades comuns, destacam-se problemas gastrointestinais (25%), respiratórios (15%) e obesidade (6%).

No campo da saúde mental, os números alarmam: 49% já praticaram autolesão e 7% tentaram suicídio. Essas estatísticas reforçam a necessidade de intervenções precoces e acompanhamento vitalício, demandas que recaem majoritariamente sobre as mulheres da família.

  • 86% dos cuidadores primários de crianças autistas são mães;
  • 79% sentem insegurança quanto à autonomia futura dos filhos;
  • 68% não conseguem tempo para autocuidado;
  • 73% enfrentam dificuldades financeiras com terapias;
  • 36% carregam culpa pelo diagnóstico, quase todos mulheres.

Impactos na saúde e carreira

A sobrecarga compromete a qualidade de vida das cuidadoras. Pesquisas da UFPI indicam bem-estar reduzido entre mães de baixa renda (85% das cuidadoras em amostras locais), com piora quando se trata de meninas autistas, que apresentam quadros geralmente mais severos.

No Censo 2022, o IBGE incluiu perguntas sobre TEA pela primeira vez, mas dados consolidados ainda são limitados. Estimativas globais do CDC (1 em 36 crianças) projetam até 4 milhões de autistas no Brasil, pressionando famílias e sistema público de saúde.

Iniciativas privadas como Genial Care e Tismoo.me oferecem orientação parental e terapias baseadas em evidências, aliviando parte da pressão. Ainda assim, faltam estruturas públicas como creches especializadas e licenças parentais compartilhadas.

Propostas para enfrentar o desafio

Para mitigar a desigualdade de gênero no cuidado, especialistas defendem mudanças estruturais. Políticas de inclusão devem incluir programas de saúde mental direcionados às cuidadoras, diagnóstico precoce pelo SUS – especialmente para meninas, subdiagnosticadas – e redes comunitárias de apoio.

Projeções indicam 5 milhões de idosos com TEA até 2040, demandando estudos longitudinais sobre envelhecimento autista. Mães como Luciana Habermann enfatizam o protagonismo familiar: "Pais devem liderar intervenções, não apenas terapeutas sem experiência parental".

  • Licença parental compartilhada entre mãe e pai;
  • Creches especializadas em municípios médios;
  • Saúde mental gratuita para cuidadoras;
  • Capacitação de professores para inclusão escolar;
  • Fomento a healthtechs especializadas em TEA.

O aumento de diagnósticos, impulsionado por critérios ampliados do DSM-5 e maior conscientização, coloca o Brasil diante de um teste de maturidade social. Mulheres permanecem na vanguarda, mas o suporte coletivo pode converter essa sobrecarga em rede de solidariedade. A jornada pelo autismo no país exige, acima de tudo, compromisso compartilhado com a inclusão plena.

Com famílias cada vez mais informadas e organizadas, o cenário evolui. ONGs regionais multiplicam-se, e a pressão por direitos cresce. Resta ao poder público responder à altura dessa demanda crescente, garantindo dignidade tanto aos autistas quanto a quem zela por eles dia após dia.

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