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Educação

Violência armada corta rotas de ônibus e afeta aprendizado de quase 190 mil estudantes no Rio

26 mar 2026 - 09h36 Joice Gomes
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Violência armada corta rotas de ônibus e afeta aprendizado de quase 190 mil estudantes no Rio Estudo do Unicef, Fogo Cruzado e UFF revela que 190 mil alunos do Rio tiveram rotas de ônibus interrompidas por violência entre 2023 e julho de 2025. (Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Um levantamento inédito aponta que quase 190 mil estudantes da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro tiveram o acesso à escola prejudicado entre janeiro de 2023 e julho de 2025 porque trajetos de ônibus e outros modais de transporte público usados por eles foram interrompidos por tiroteios, barricadas, operações policiais e protestos. A base desse diagnóstico é o estudo “Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro”, da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Instituto Fogo Cruzado e Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF).

A pesquisa mapeou 2.228 interrupções em rotas de transporte público utilizadas por estudantes da rede municipal nesse período. Em 49% desses episódios, as paralisações ocorreram em dias letivos e no horário escolar, entre 6h30 e 18h30, o que significa que crianças e adolescentes ficaram literalmente “trancados” em casa ou em terminais sem conseguir chegar às aulas ou voltar para casa.

Duração longa e impacto na rotina

Em média, cada interrupção durou pouco mais de sete horas, e um quarto dos eventos ultrapassou 11 horas de paralisação seguida. Quando o bloqueio acontece no horário de ida ou volta da escola, a média salta para 8 horas e 13 minutos, e mais da metade dos casos supera quatro horas de suspensão do serviço – tempo suficiente para cancelar um turno inteiro de aula e desestabilizar a rotina familiar.

Flavia Antunes, chefe do escritório do Unicef no Rio de Janeiro, destaca que esse tipo de interrupção não afeta apenas um dia de aula isolado, mas a continuidade do aprendizado. “Quando o acesso à escola é bloqueado de forma recorrente, isso atinge diretamente a trajetória de vida das crianças e adolescentes, especialmente dos que já vivem em situação de vulnerabilidade”, explica. Ela ressalta que o medo de ficar preso em um tiroteio ou em meio a barricadas desencoraja a frequência escolar e contribui para problemas de saúde mental, baixa concentração e maior risco de evasão.

Desigualdade espacial nos bloqueios

Entre as 4.008 unidades escolares ativas da rede municipal em 2024, cerca de 95% tiveram pelo menos um registro de interrupção de transporte em seu entorno ao longo do período analisado. Mesmo assim, o problema se concentra em bairros historicamente marcados por desigualdades urbanas, raciais e de infraestrutura.

O bairro da Penha, na zona norte, aparece como o maior aluno de mobilidade interrompida: foram registrados 633 eventos entre 2023 e julho de 2025, o equivalente a cerca de 176 dias sem ônibus circulando normalmente. Em seguida vem Bangu, na zona oeste, com 175 episódios, e Jacarepaguá, na zona sudoeste, com 161 ocorrências e 128 dias acumulados de paralisação. Somando apenas os eventos que ocorreram no período letivo e no horário escolar em Penha e Jacarepaguá, chega‑se a 397 registros, ou aproximadamente 88 dias letivos em que o transporte ficou inoperante.

Classificação de risco para as escolas

Considerando a frequência e a intensidade das interrupções, o estudo agrupou as escolas municipais em diferentes níveis de risco. Aproximadamente um quarto das matrículas da rede – 323.359 crianças e adolescentes – está vinculado a unidades classificadas como de risco moderado, alto ou muito alto de mobilidade interrompida.

Dentre mais de quatro mil escolas, 120 (2,9% do total) foram colocadas na faixa de risco alto ou muito alto, indicando territórios onde o bloqueio de transporte se tornou algo recorrente no cotidiano escolar. A zona norte concentra 71 dessas unidades, enquanto a zona oeste responde por 48. A rede de transporte público, que interliga bairros diferentes, faz com que um bloqueio em uma favela ou via periférica acabe afetando estudantes de áreas mais distantes, ampliando o raio de impacto sobre a educação.

Segurança pública que agrava o problema

Carolina Grillo, coordenadora do Geni/UFF, critica a forma como a política de segurança pública é conduzida no Rio e aponta que operações policiais imprevisíveis ajudam a piorar o cenário para estudantes. Segundo ela, muitos bairros vivem longos períodos sem patrulhamento rotineiro e recebem a polícia apenas em ações pontuais, o que gera expectativa de confronto e incentiva a montagem de barricadas e troca de tiros.

“São territórios onde a polícia não faz patrulhamento de rotina e entra principalmente em operações intermitentes, muitas vezes pouquíssimo eficientes no combate ao controle territorial armado. Isso cria um ambiente de tensão permanente, que recai diretamente sobre as crianças e adolescentes que precisam sair de casa para ir à escola”, diz. Para Carolina, proteger o perímetro escolar e garantir que rotas de ônibus não sejam cortadas por operações policiais desconsideradas é essencial, porque a educação é um dos principais caminhos de mobilidade social para essas populações.

Insegurança permanente e desafios para o poder público

Maria Isabel Couto, diretora de Dados e Transparência do Instituto Fogo Cruzado, ressalta que a violência armada produz uma espécie de “barreira emocional” sobre as rotas escolares. A simples expectativa de que ônibus possam ser bloqueados, tiros possam ser trocados ou veículos da polícia bloqueiem o caminho desencoraja muitos estudantes de frequentar regularmente a escola.

Apesar de quase todas as escolas municipais terem sido atingidas ao menos uma vez, o estudo aponta que 70 dos 166 bairros do município não registraram nenhuma interrupção de transporte público no horário e no período letivo. “Isso mostra um padrão de desigualdade muito claro: a combinação de política de segurança, política de transporte e política de educação está sendo construída de forma desigual, com impacto mais forte sobre zonas periféricas”, observa Maria Isabel. Para ela, o poder público precisa olhar para essas evidências como um sinal de alerta para reformular rotas, reforçar policiamento preventivo e garantir que o direito à educação não seja pisoteado pela rotina de violência urbana.

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