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Saúde

Vacinação contra HPV ganha força no Brasil, mas câncer de colo do útero segue matando milhares de mulheres

25 mar 2026 - 09h31 Joice Gomes
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Vacinação contra HPV ganha força no Brasil, mas câncer de colo do útero segue matando milhares de mulheres A vacinação contra HPV progride na região, mas rastreamento oportunístico e diagnósticos tardios mantêm altas taxas de mortalidade por câncer cervical. (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A campanha nacional de vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) registra avanços significativos no Brasil, mas o câncer de colo do útero continua sendo uma das principais causas de morte entre mulheres em idade fértil. Dados recentes mostram que, apesar da maior adesão entre crianças e adolescentes, as mortes pela doença persistem em níveis alarmantes, com cerca de 7,5 mil óbitos registrados apenas em 2024.

O HPV provoca praticamente todos os casos dessa neoplasia, considerada 100% prevenível com vacinação adequada e exames regulares. Na América Latina, um levantamento publicado em fevereiro na revista The Lancet aponta cobertura vacinal irregular, variando de 45% a 97% em diversos países, insuficiente para conter a transmissão viral e reduzir a incidência do câncer a longo prazo.

Cobertura vacinal em ascensão

O Ministério da Saúde ampliou em 2024 o esquema vacinal para dose única em meninas e meninos de 9 a 14 anos, estratégia que elevou a cobertura para 82,83% no público feminino e 67,26% no masculino. Jovens de até 19 anos agora integram o resgate vacinal, com ações em escolas e unidades básicas de saúde para alcançar os não imunizados.

Desde a inclusão da vacina no Calendário Nacional em 2014, o Brasil superou a média global de imunização. Flavia Miranda Corrêa, médica e pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer (INCA), destaca que a proteção se estende a outros tipos de câncer relacionados ao HPV, como os de ânus, pênis e orofaringe. "Estamos próximos da meta de 90% estabelecida pela OMS", afirma ela.

Diagnósticos tardios alimentam estatísticas

Mesmo com os ganhos na prevenção primária, o rastreamento secundário revela fragilidades graves. O modelo oportunístico, baseado na ida espontânea das mulheres aos serviços de saúde, falha em alcançar 70% da população-alvo entre 25 e 64 anos, como preconiza a Organização Mundial da Saúde.

No Brasil, cerca de 19 mil novos casos surgem anualmente, segundo estimativas do INCA para 2026-2028. Regiões como Norte e Nordeste enfrentam barreiras de acesso, resultando em diagnósticos em estágios avançados, quando as chances de cura caem drasticamente. Um aumento de 13,4% nas mortes em três anos reforça a urgência de mudanças estruturais.

Revolução tecnológica no SUS

Para reverter esse quadro, o Sistema Único de Saúde incorporou em 2025 o teste molecular de DNA-HPV, desenvolvido nacionalmente pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná e Fiocruz. Mais preciso que o exame citológico tradicional, ele identifica 14 tipos oncogênicos do vírus anos antes das lesões cancerígenas, permitindo rastreio a cada cinco anos.

A implementação começa em 12 estados, com meta de expansão total até o fim de 2026. O ministro Alexandre Padilha enaltece a velocidade do processo, que supera nações desenvolvidas. Luiz Augusto Maltoni, da Fundação do Câncer, defende a autocoleta para grupos vulneráveis e a integração entre atenção primária e especializada, evitando perdas no fluxo assistencial.

Sintomas que não podem ser ignorados

Mulheres devem ficar atentas a sinais como sangramento vaginal fora do período menstrual, após relações sexuais ou na menopausa, corrimento anormal com mau odor e dor pélvica persistente. Em fases iniciais, a doença é assintomática, o que reforça a necessidade de exames preventivos anuais ou bienais.

O intervalo entre infecção pelo HPV e o desenvolvimento do câncer pode chegar a 20 anos, oferecendo ampla oportunidade para intervenção. O Dia Nacional de Conscientização do Câncer de Colo do Útero, em 26 de março, mobiliza campanhas educativas em todo o país.

Rumo à eliminação global

A estratégia global da OMS, lançada em 2020, estabelece três pilares: vacinar 90% das meninas, rastrear 70% das mulheres e tratar 90% dos casos positivos. Países como Austrália e Canadá já colhem frutos com quedas expressivas na incidência, graças a sistemas organizados de convocação ativa.

No Brasil, parcerias com entidades como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica combatem mitos sobre a vacina e promovem adesão. Especialistas alertam que, sem interoperabilidade digital entre serviços, o país arrisca não cumprir prazos. A Venezuela permanece como exceção regional, sem programa vacinal público.

  • Cobertura HPV meninas (9-14 anos): 82,83% em 2024
  • Meninos (9-14 anos): 67,26%
  • Novos casos anuais (INCA): 19 mil (2026-2028)
  • Mortes em 2024: Aproximadamente 7,5 mil
  • Teste DNA-HPV: Detecta 14 genótipos; intervalo de 5 anos
  • Meta OMS: Eliminação como saúde pública até 2030

Investimentos em prevenção podem converter o câncer de colo do útero de terceira causa de óbito em neoplasia praticamente erradicada. Com compromisso intersetorial, o Brasil tem potencial para liderar a América Latina nessa vitória sanitária histórica.

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