Iniciativa do Refauna e ICMBio restaura biodiversidade da Mata Atlântica.
(Imagem: Flavia Zagury/Refauna)
O azul e amarelo vibrante das araras-canindés voltaram a cruzar o céu carioca no início de janeiro de 2026. Três fêmeas foram soltas no Parque Nacional da Tijuca, marcando a primeira reintrodução da espécie na capital fluminense, considerada extinta localmente há mais de 200 anos.
Chamadas Fernanda, Suely e Fátima, as aves homenageiam a atriz Fernanda Torres e personagens do seriado Tapas e Beijos. Vindas de São Paulo, elas passaram por rigorosa aclimatação antes da liberdade, um esforço conjunto da Refauna e do ICMBio.
Aclimatação minuciosa na floresta
Desde junho de 2025, as araras-canindés habitaram um recinto de 20 metros no parque, adaptando-se aos sons, cheiros e frutas nativas da Mata Atlântica. Treinamento diário de voo fortaleceu suas asas para percorrer até 10 km na natureza.
A bióloga Lara Renzeti, do Refauna, supervisionou a transição alimentar com jabuticabas e outras frutas silvestres, sempre em plataformas elevadas. Comportamentos domesticados, como se aproximar de humanos, foram corrigidos para garantir sobrevivência independente.
Selton, o macho do grupo, adia sua soltura por recuperação de infecção pulmonar. Ele aguardará novo lote em março, com liberação prevista para o segundo semestre, ampliando o bando fundador.
Monitoramento com ajuda popular
Equipadas com anilhas, microchips e colares, as araras-canindés recebem suporte contínuo. A Refauna oferece alimentação suplementar e recapturas preventivas, especialmente contra aproximações perigosas de pessoas.
- WhatsApp (21 969744752) e Instagram da Refauna recebem relatos de avistamentos.
- App SISS-Geo, da Fiocruz, registra fotos e dados offline para rastreamento.
- Ciência Cidadã mobiliza moradores e turistas na vigilância ativa.
Viviane Lasmar, gestora do parque, aposta em cursos para guias turísticos, ensinando não alimentar ou interagir com as aves. Educação ambiental reduz riscos e fomenta orgulho pela biodiversidade local.
Desafio da defaunação na Mata Atlântica
A reintrodução combate a perda de fauna essencial para regeneração florestal. Noventa por cento das plantas da Mata Atlântica precisam de animais para dispersar sementes; sem elas, ecossistemas colapsam mesmo em áreas protegidas.
O Refauna planeja 50 araras-canindés em cinco anos, soltando dez anualmente. Mais indivíduos elevam chances de pares reprodutores, formando população estável no coração verde do Rio.
Desde 2010, a organização devolveu cutias-vermelhas, jabutis-tingas, bugios-ruivos e antas à Tijuca e regiões vizinhas, provando eficácia em restaurar cadeias ecológicas rompidas.
Legado histórico e futuro promissor
Registros do século 16 documentam araras-canindés na costa fluminense; urbanização e caça as extinguiram regionalmente. Globalmente comum no Cerrado, a espécie ganha segunda chance na capital.
O Parque Nacional da Tijuca, icônico pelo Cristo Redentor, revela-se santuário vital. Viveiros para ninhos e apoio logístico preparam terreno para ninhadas futuras, ampliando impacto.
Primeiros voos bem-sucedidos emocionam equipe e comunidade. Avistamentos iniciais confirmam adaptação, inspirando réplicas em outros parques. A volta das araras reacende debate sobre conservação urbana.
Parcerias público-privadas como essa provam viabilidade de reversão ambiental. Moradores relatam entusiasmo; guias já incorporam história das aves em roteiros, educando visitantes.
No contexto brasileiro, onde 43% da fauna ameaçada é da Mata Atlântica, iniciativas assim sinalizam esperança. Cada voo colorido reforça que extinções regionais não são irreversíveis com ciência e compromisso coletivo.
A expectativa cresce para o próximo grupo. Nomes guardados em segredo prometem mais cultura pop nas asas azuis. Enquanto isso, cariocas erguem os olhos, redescobrindo maravilhas da própria natureza.