Linhas de transmissão de energia elétrica sob céu carregado: planejamento tenta mitigar efeitos do clima extremo.
(Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
O governo brasileiro decidiu antecipar a ativação de 1,8 gigawatts (GW) de energia extra a partir de 1º de setembro para blindar o sistema elétrico nacional contra os impactos severos do El Niño. A decisão estratégica visa garantir o abastecimento de lares e indústrias antes do período mais crítico de calor.
A medida, recomendada pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), evita que o país precise acionar usinas de última hora no mercado livre. Segundo estudos oficiais, o uso dessas usinas sem contrato prévio custa pelo menos 25% mais caro, pesando diretamente no bolso do consumidor.
Com a iminência de um dos fenômenos climáticos mais severos das últimas décadas, o planejamento busca neutralizar a redução da vazão das hidrelétricas do Norte e o aumento repentino no consumo de energia provocado pelas altas temperaturas.
O que está por trás da decisão preventiva
A antecipação envolve cinco usinas vencedoras dos leilões de reserva de capacidade realizados em março deste ano. Trazer essa energia para o sistema antes do prazo original funciona como um escudo contra instabilidades internas e externas.
Além das questões climáticas, o Ministério de Minas e Energia destacou que o atual cenário geopolítico global e a oscilação nos preços dos combustíveis fósseis influenciaram a medida. Depender de térmicas caras e sem contrato em tempos de instabilidade internacional traria riscos econômicos desnecessários.
Como o El Niño ameaça o sistema elétrico
Os dados científicos justificam o alerta máximo do governo. De acordo com a agência climática norte-americana (NOAA), há 81% de chance de o El Niño atingir a categoria de 'muito forte' até o fim de dezembro, o que o tornaria o mais intenso desde 1950.
O aquecimento incomum das águas do Oceano Pacífico altera o regime de chuvas e de ventos em todo o país. Na prática, isso esvazia os reservatórios de hidrelétricas cruciais no Norte e eleva drasticamente a demanda por refrigeração nas regiões metropolitanas.
O que pode acontecer a partir de agora
O cenário internacional serve de espelho para os desafios que o Brasil enfrentará. Recentemente, a Europa vivenciou ondas históricas de calor que paralisaram sistemas de transmissão e sobrecarregaram serviços públicos essenciais devido a extremos climáticos semelhantes.
Essa margem de segurança de 1,8 GW ajudará a sustentar a rede nacional até o início de 2027. O sucesso dessa operação preventiva, no entanto, também exigirá um monitoramento contínuo das bacias hidrográficas e uma resposta ágil do setor para evitar sobressaltos nas tarifas públicas.