Cerimônia de diplomação póstuma de estudantes e professores da UFRJ mortos e desaparecidos durante a ditadura militar.
(Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil)
O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto de Andrade Medronho, destacou durante a cerimônia de diplomação póstuma que a entrega dos documentos representa um compromisso com a memória, a verdade e a justiça. A solenidade, realizada na quinta-feira (9), homenageou 23 estudantes e professores mortos ou desaparecidos durante a ditadura militar, incluindo o economista Fernando Augusto da Fonseca, cujo filho, André Luiz Araújo da Fonseca, recebeu o diploma em nome do pai.
Fernando Augusto da Fonseca foi levado para uma dependência do Exército no Recife há 53 anos, em 1973. Enquanto era torturado por 20 dias, sua mulher grávida e o filho de 3 anos ficaram presos em um hotel. A família foi liberada após o assassinato de Fernando e a entrega do corpo. A viagem para o Nordeste havia ocorrido para fugir da repressão da ditadura militar. Por causa da militância estudantil, ele havia sido expulso da UFRJ, teve de abandonar o emprego e a vida na capital carioca.
“Essa identidade como estudante de Economia era muito forte para ele. O diploma encerra um ciclo, é como se ele estivesse atingindo aquele objetivo lá do passado”, disse André Luiz, que hoje é professor da mesma UFRJ. “Vou botar o diploma dele junto com o meu na parede”, complementa.
Memória e resistência
O jornalista Franklin Martins, que era presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRJ em 1968, destacou o papel do movimento estudantil, dos jovens e dos professores na linha de frente da resistência contra a repressão estatal. “A recuperação dessa memória serve de exemplo para a melhoria das lutas sociais atuais”, disse.
A atual coordenadora-geral do DCE Mário Prata da UFRJ, Malu Cerqueira, destacou que a diplomação tem significado duplo: reparação às famílias dos desaparecidos e uma tomada de posição política voltada para o presente. “Essa é a memória que a gente quer que essa universidade preserve. Não a memória de torturadores, mas a dos melhores filhos do povo, dos lutadores que enfrentam esse regime autoritário”, disse.
Lista dos homenageados
O levantamento dos nomes foi feito pela Comissão da Memória e da Verdade da UFRJ com base nos relatórios oficiais do país. Entre os homenageados estão Adriano Fonseca Fernandes Filho, Ana Maria Nacinovic, Antônio de Pádua Costa, Antônio Teodoro de Castro, Antônio Sérgio de Matos, Arildo Airton Valadão, Áurea Eliza Pereira Valadão, Ciro Flávio Salazar e Oliveira, Fernando Augusto da Fonseca, Flávio Carvalho Molina, Frederico Eduardo Mayr, Guilherme Gomes Lund, Hélio Luiz Navarro, Jana Moroni Barroso, José Roberto Spigner, Kleber Lemos da Silva, Luiz Alberto Andrade de Sá e Benevides, Maria Célia Corrêa, Maria Regina Lobo Leite Figueiredo, Mário de Souza Prata, Paulo Costa Ribeiro Bastos, Solange Lourenço Gomes e Sonia Maria Lopes de Moraes.
Outros dois homenageados da noite já eram formados ou atuavam como docentes na época da sua morte e receberam o reconhecimento de seus vínculos e legados institucionais. São eles: Lincoln Bicalho Roque, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, e Raul Amaro Nin, pesquisador da Faculdade de Engenharia.