Educação é prioridade para moradores de favelas do Rio nas eleições.
(Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil)
No estado do Rio de Janeiro, 12,8 milhões de eleitores estão aptos a ir às urnas em outubro. Desses, 2,1 milhões vivem em uma das 1,724 favelas fluminenses, segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As áreas, apesar de antigas, ainda enfrentam maiores dificuldades de urbanização e de acesso a serviços e políticas públicas, o que evidencia a desigualdade na presença do Estado nesses territórios.
Na cidade do Rio, por exemplo, 1,3 milhão de pessoas moram em uma das 813 favelas, áreas com menos casas ligadas à rede de esgoto e água e menor cobertura da coleta de lixo, embora não sejam regiões homogêneas, como explica a professora de serviço social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Eblin Farage. Uma das principais estudiosas do tema, ela coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Favelas e Espaços Populares (NEPFE).
Demanda por melhorias na mobilidade e educação
Com a proximidade da troca de governantes, moradores de favela cariocas revelam à Agência Brasil demandas prioritárias para as comunidades, como melhorias na mobilidade, educação, cultura, lazer, saúde e participação social. A segurança, uma preocupação na visão deles, reflete a ausência de ações nessas áreas, embora a violência e as operações policiais sejam um problema permanente.
Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, é moradora do Complexo do Alemão, na zona norte. Envolvida em uma série de iniciativas comunitárias, como os coletivos Criar, de jovens, e o Mulheres em Ação, ela irá às urnas pela primeira vez em outubro. A ativista e pesquisadora Letícia Vitória Guimarães é moradora do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Para escolher em quem votar, a jovem revela que considera perfis “envolvidos com as pautas negras, com os direitos humanos e com a população”. Na visão dela, o candidato ou candidata também precisa saber dialogar. “Muitas vezes, [governantes] chegam com respostas prontas, sem saber o que queremos, como achamos melhor, então, precisa [ser alguém] disposto a ouvir”, frisou Letícia, que integra ainda o Conselho Estadual da Criança e do Adolescente, além de ser bolsista de um programa para jovens talentos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
A jovem também elenca como prioridade propostas para mobilidade. O acesso à cidade, frisa, é um desafio para moradores de áreas periféricas. “Hoje você não tem um ônibus que saia do Alemão ou de qualquer favela [da zona norte] para zona sul. Eu sou jovem, ir à praia é uma demanda real, de direito ao lazer”, disse, afirmando que a falta de linhas de ônibus também dificulta o acesso a empregos.
Empregos e renda
Programas como o Jovem Aprendiz não cobrem os custos com viagens de dois, até três ônibus, e a alimentação de quem passa o dia fora, afirma. “Os valores [de repasse] são baixos, hoje, R$ 20 não pagam nem uma quentinha”, criticou Letícia, sobre a política que busca inserir jovens de 14 a 24 anos no mercado de trabalho.
Da maior favela do Brasil, a Rocinha, com 72 mil habitantes, a jornalista Isabelle Rodrigues Trindade, de 26 anos, se preocupa com a ausência de oportunidades profissionais. Ela gostaria de trabalhar na área, mas não encontra vagas. Formada há dois anos na PUC-RIO, ela já trabalhou no portal de notícias da Rocinha, o Fala Roça, mas agora atua como agente cultural, em um bairro próximo. Segundo a jovem, os moradores de favelas também estão de olho nas propostas para emprego e renda, sendo o fim da escala 6x1 uma prioridade.
“É muito difícil conciliar trabalho, família e estudo com essa rotina, principalmente, por causa dos grandes deslocamentos, caso das pessoas que moram em favelas”, analisou. O regime de trabalho, avalia, também retira da juventude tempo de qualificação e de lazer.
Educação e cultura
A oferta de mais cursos técnicos e profissionalizantes, além de projetos esportivos, vai definir o voto de João*, um jovem de 26 anos que vive de bicos, é pai de duas meninas e mora em uma grande favela da zona norte.