Fiéis e simpatizantes reúnem se em Porto Alegre para combater preconceitos contra religiões de matriz africana.
(Imagem: Instagram/pai_ricardo_oxum)
Porto Alegre sedia neste sábado (15) duas grandes mobilizações que jogam luz sobre a urgente resistência contra a intolerância religiosa no Sul do Brasil: a 3ª Marcha dos Quimbandeiros e o 19º Encontro Internacional de Quimbandeiros. O Rio Grande do Sul vive um paradoxo incômmodo, abrigando a maior proporção de adeptos de religiões de matriz africana do país e, ao mesmo tempo, registrando frequentes episódios de violência e discriminação contra os terreiros.
Idealizados pela Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, sob a liderança do babalorixá Pai Ricardo de Oxum e da Família Yecari, os eventos buscam transformar a capital gaúcha em um polo de acolhimento e união para sacerdotes do Brasil, Uruguai e Argentina.
O que está por trás do racismo religioso no Sul
De acordo com o Censo Demográfico do IBGE, o Rio Grande do Sul lidera a presença de praticantes de Umbanda e Candomblé no país, somando 3,19% da população local. No entanto, a visibilidade desses fiéis esbarra em barreiras históricas e estruturais. Pai Ricardo relembra que o Encontro de Quimbandeiros nasceu há quase duas décadas justamente pela impossibilidade de manifestar a fé publicamente sem sofrer hostilidades imediatas.
Na prática, o preconceito impede que ritos tradicionais ocorram de forma segura. A repressão policial sem diálogo e os ataques diretos são reflexos de uma intolerância que também ultrapassa as fronteiras gaúchas, afetando fortemente comunidades em países vizinhos como o Uruguai e a Argentina.
Por que a Quimbanda enfrenta preconceito duplo
Além da discriminação racial e cultural inerente ao racismo religioso, a Quimbanda enfrenta barreiras adicionais ligadas ao pânico moral e à sexualidade. As entidades reverenciadas, como Exu e Pomba-Gira, frequentemente acolhem e se manifestam de forma expressiva através de pessoas da comunidade LGBTQIA+, gerando um preconceito interseccional.
O sacerdote explica que a incompreensão do público geral sobre o papel dessas entidades vistas erroneamente sob uma ótica judaico-cristã de dualidade entre o bem e o mal alimenta o ódio. Na Quimbanda, Exu e Pomba-Gira são considerados mensageiros ancestrais, trabalhadores espirituais que atuam no campo astral focados na harmonia familiar e no amparo, sem qualquer relação com a figura ocidental do diabo.
Como a cultura popular ajuda a desmistificar a fé
Um avanço significativo nessa batalha cultural ocorreu em 2022, quando a escola de samba Grande Rio conquistou o carnaval carioca ao homenagear Exu. Essa exibição artística ajudou a humanizar e aproximar a divindade do público leigo, demonstrando sua complexidade e afastando estereótipos demonizantes.
Dados recentes do Disque 100 reforçam a urgência do debate: entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, foram notificadas 2.774 denúncias de intolerância religiosa no país, com os cultos de matriz africana figurando no topo das violações identificadas.
A conquista de um espaço doado pela prefeitura de Porto Alegre, batizado de Rótulo da Quimbanda, onde está o primeiro monumento a céu aberto de Exu no Brasil, sinaliza uma transição importante para o reconhecimento institucional. A marcha de hoje, que no último ano atraiu mais de duas mil pessoas com cartazes e cantos sagrados, consolida um movimento de ocupação pacífica do espaço público para exigir dignidade e o direito constitucional de existir sem medo.