Canetas emagrecedoras impactam o setor de bares e restaurantes.
(Imagem: Receita Federal/divulgação)
O setor de bares e restaurantes enfrenta uma nova realidade: as canetas emagrecedoras, que contêm medicamentos da classe dos GLP-1, estão alterando os hábitos de consumo e gerando impactos financeiros significativos. O grupo Turatti, que reúne cervejarias e restaurantes em Fortaleza, teve o pedido de recuperação judicial aprovado pela Justiça com dívidas superiores a R$ 12 milhões. Entre os fatores apresentados, as mudanças de hábitos no pós-pandemia, a retração do consumo presencial e o avanço das canetas emagrecedoras foram destacados.
As pesquisas indicam que os medicamentos GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, estão alterando não apenas o apetite dos usuários, mas também os gastos com alimentação fora de casa. A decisão judicial sobre o Turatti menciona a redução do consumo de bebidas alcoólicas associada aos medicamentos, além da tendência de menor consumo de álcool pelas gerações mais jovens.
Impacto financeiro e comportamental
Um levantamento da NielsenIQ divulgado em abril deste ano mostrou que os medicamentos haviam chegado a cerca de 5% dos lares brasileiros pesquisados, provocando mudanças relevantes entre seus usuários. Após o início do tratamento, 62,3% disseram ter reduzido os gastos com saídas a bares, e 54,9% afirmaram gastar menos com restaurantes. Há dois possíveis efeitos sobre o orçamento: o primeiro é fisiológico, com aumento da saciedade e redução do apetite, e o segundo é financeiro, com a necessidade de comprimir outros gastos para bancar o medicamento.
Na pesquisa da NielsenIQ, 62,2% dos usuários afirmaram ter despriorizado despesas para bancar o medicamento. Os próprios restaurantes começam a perceber a transformação. Pesquisa divulgada pela Abrasel em julho último mostrou que 61% dos empresários consultados identificaram mudanças de comportamento relacionadas às canetas. Entre os que notaram efeitos, 64% observaram maior procura por porções menores e 65%, redução no consumo de sobremesas.
Adaptação dos negócios
Outro levantamento, da consultoria Galunion, encontrou alterações ainda mais amplas. Entre consumidores que usam ou já utilizaram GLP-1, 91% disseram ter modificado algum hábito ao comer fora. Pedir porções menores, evitar alimentos muito gordurosos, procurar pratos mais leves, reduzir o consumo de doces e priorizar proteínas estão entre as principais mudanças. Para bares e cervejarias, existe um componente adicional: estudos científicos vêm investigando a relação entre os medicamentos e o consumo de álcool.
Um ensaio clínico publicado no JAMA Psychiatry encontrou redução do desejo e de algumas medidas de consumo de álcool entre participantes tratados com semaglutida. A dimensão desse efeito na população em geral, contudo, ainda está sendo estudada. Isso pode tornar alguns modelos de negócio mais expostos do que outros, como é o caso dos estabelecimentos que oferecem rodízio de pratos e clones de bebidas.
Com a expansão dos GLP-1 e a chegada de alternativas mais acessíveis, o impacto pode deixar de ser restrito a uma pequena parcela dos consumidores. Há, inclusive, candidatos às próximas eleições que incluíram em seus programas propostas para tornar essas canetas mais acessíveis à população em geral. A pergunta para bares e restaurantes talvez não seja apenas se haverá menos gente ocupando as mesas. Pode ser outra, mais difícil de perceber à primeira vista: como adaptar o negócio aos novos hábitos de consumo.