Vice presidente Geraldo Alckmin e equipe ministerial anunciam medidas de crédito e retaliação legal contra barreiras comerciais dos EUA.
(Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil)
A escalada da tensão comercial entre Brasília e Washington ganhou um novo e preocupante capítulo que promete impactar diretamente o setor produtivo nacional. A partir de 22 de julho, os Estados Unidos aplicarão uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros, uma medida protecionista que levou o governo federal a estruturar às pressas um plano de socorro financeiro para blindar a indústria nacional de perdas milionárias.
O anúncio, feito em Brasília por uma coalizão de ministérios e representantes do Banco Central, tenta conter o nervosismo do mercado após o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) formalizar as sanções sob a alegação de supostas práticas comerciais desleais. Ao todo, cerca de 2.400 empresas nacionais devem sofrer o impacto direto da taxação repentina.
Na prática, o tarifaço morde uma fatia expressiva da nossa balança comercial, alcançando transações estimadas em US$ 7,4 bilhões. Setores tradicionais como os de calçados, madeira, móveis, cerâmica, máquinas e açúcar correm contra o tempo para reestruturar suas operações e evitar demissões em massa.
O que muda na prática com o plano de socorro
Para mitigar as perdas imediatas, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) desenhou uma estratégia focada em sobrevivência financeira. O governo oferecerá linhas de crédito subsidiadas para capital de giro e investimentos produtivos, além de apoiar logisticamente o escoamento dessas mercadorias para mercados alternativos.
Mas o impacto vai além do alívio financeiro temporário. O vice-presidente Geraldo Alckmin indicou que o país está pronto para revidar juridicamente, acionando pela primeira vez os mecanismos da recém-provada Lei de Reciprocidade, que autoriza o Brasil a impor barreiras comerciais equivalentes em resposta a ataques unilaterais.
E é aqui que está o ponto central do embate: a insatisfação brasileira com o pretexto americano. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou a barreira como uma interferência externa indevida e garantiu que todas as alegações norte-americanas são falsas e destituídas de fundamentação técnica.
O que está por trás das queixas de Washington
Entre os pontos mais inusitados questionados pelos norte-americanos está o Pix. A Casa Branca alega que o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil impõe barreiras ao comércio digital e desfavorece concorrentes estrangeiros do setor de meios de pagamento.
A resposta brasileira veio com firmeza e ironia. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, rechaçou o argumento comparando-o a dizer que o saneamento básico prejudica a receita de quem distribui água em caminhões-pipa. Galípolo destacou que, longe de prejudicar o setor privado, a implementação do Pix fez o mercado brasileiro de cartões de crédito crescer expressivos 150%.
Outro flanco de ataque americano mirou as políticas ambientais do país, acusando o Brasil de complacência com o desmatamento ilegal de madeira. O Ministério do Meio Ambiente rebateu os dados de forma categórica, lembrando que a destruição florestal na Amazônia registrou queda expressiva de 50% nos últimos três anos.
O que pode acontecer a partir disso
Enquanto setores gigantes como os de aviação, petróleo, café e carne bovina respiram aliviados por terem sido deixados fora da lista negra de tarifas americanas, a indústria manufatureira nacional precisará acelerar o passo rumo à diversificação de compradores globais.
A participação dos Estados Unidos no destino das exportações brasileiras vem encolhendo gradativamente de 12,1% para os atuais 9,4%. Esse novo atrito tarifário deve apenas consolidar a tendência de isolamento de Washington e aproximar ainda mais os produtores nacionais de novos parceiros estratégicos na Ásia e na Europa.