Lula cncedendo entrevista na PF de Curitiba, onde cupria pena, observado pelo autor do livro e fotografado pela assessoria.
(Imagem: Divulgação)
O policial federal Jorge Chastalo Filho relata que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fazia críticas e utilizava expressões ofensivas ao se referir a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) durante o período em que esteve preso em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019. Os episódios estão no livro Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula, no qual o agente descreve conversas e situações que acompanhou enquanto trabalhava na custódia do então ex-presidente.
Segundo os relatos publicados na obra, os principais alvos das manifestações de insatisfação eram Cármen Lúcia, Edson Fachin e Luiz Fux. As declarações teriam ocorrido em meio a decisões judiciais desfavoráveis a Lula, que aguardava julgamentos de recursos e pedidos relacionados à sua liberdade e às condenações da Operação Lava Jato.
As informações sobre as conversas foram divulgadas inicialmente pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Os comentários atribuídos ao petista são apresentados a partir das lembranças e dos registros de Chastalo Filho.
Lula teria chamado Cármen Lúcia de "falsa humilde"
Um dos episódios descritos no livro teria ocorrido em julho de 2018, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisava a possibilidade de Lula disputar a eleição presidencial daquele ano. Na ocasião, o então ex-presidente teria demonstrado irritação com a ministra Cármen Lúcia, que presidia o STF.
De acordo com o relato do policial federal, Lula recordou uma conversa que teria mantido com a magistrada antes de sua indicação ao Supremo, em 2006. O petista afirmou que ela teria contado histórias sobre a infância, a origem familiar e a importância da gratidão para conquistar sua confiança.
Ao comentar a postura da ministra, Lula teria dito: "A Cármen é uma falsa humilde, Chastalo". Na sequência, segundo o livro, demonstrou arrependimento por ter apoiado a indicação dela para a Corte.
Em outro momento, o então ex-presidente teria chamado Cármen de "miserável" e criticado decisões que considerava desfavoráveis. As falas são atribuídas a Lula pelo autor da obra e não representam declarações públicas feitas pelo ministro ou pela ministra.
Edson Fachin também teria sido alvo de críticas
O ministro Edson Fachin aparece entre os principais alvos das reclamações descritas por Chastalo. Segundo o policial, Lula dizia não confiar no magistrado e demonstrava insatisfação com decisões relacionadas aos processos que envolviam sua situação judicial.
O ex-presidente teria afirmado que não indicou Fachin durante seu governo porque não confiava nele. A nomeação do ministro para o STF ocorreu durante o governo de Dilma Rousseff, em 2015.
Em uma das conversas reproduzidas no livro, Lula teria utilizado uma expressão ofensiva para se referir ao magistrado. Também teria feito comentários sobre a religiosidade de Fachin, questionando a coerência entre suas convicções religiosas e suas decisões judiciais.
As críticas, conforme a narrativa do ex-carcereiro, estavam ligadas à expectativa de Lula de que ministros indicados por governos do PT tivessem uma postura diferente diante dos processos que resultaram em sua prisão.
Luiz Fux foi criticado após decisão sobre entrevistas na prisão
Luiz Fux também teria sido alvo de comentários duros. O episódio relatado no livro está relacionado à decisão do ministro que derrubou uma autorização concedida por Ricardo Lewandowski para que Lula concedesse entrevistas aos jornais Folha de S.Paulo e El País enquanto estava preso.
Segundo Chastalo Filho, Lula afirmou que Fux frequentava cerimônias durante seu governo e demonstrava interesse em se aproximar da Presidência, mas que nunca confiou nele.
O petista teria chamado o ministro de "cachorro pidão" e "canalha", em referência à relação que dizia ter mantido com o magistrado antes de sua chegada ao Supremo.
Livro também registra elogios a ministros do Supremo
Apesar das críticas, o relato de Chastalo aponta que Lula não demonstrava insatisfação com todos os integrantes da Corte. Gilmar Mendes e Celso de Mello teriam recebido elogios do então ex-presidente, que reconhecia nos dois ministros disposição para tomar decisões consideradas difíceis.
Em contrapartida, Lula teria criticado magistrados que, na avaliação atribuída a ele, evitavam decisões controversas ou se preocupavam excessivamente com a repercussão pública de seus votos.
O livro Banho de Sol reúne relatos sobre os 580 dias em que Lula permaneceu na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. A obra apresenta bastidores da rotina na prisão, conversas com agentes e episódios envolvendo a relação do petista com autoridades, jornalistas e visitantes.
Lula foi preso em abril de 2018 e deixou a carceragem em novembro de 2019, após decisão do STF que mudou o entendimento sobre a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância. Posteriormente, o Supremo também anulou as condenações do petista relacionadas aos processos julgados pela Justiça Federal de Curitiba.