A OAB cobra o fim do inquérito das fake news no STF, aberto em 2019, por falta de delimitação temporal.
(Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil)
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entregou nesta segunda-feira (23) um ofício formal ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, com um apelo direto: o encerramento definitivo do inquérito das fake news.
Conhecido tecnicamente como Inquérito nº 4.781, o procedimento investiga desde 2019 a disseminação de conteúdos falsos, ameaças e ofensas dirigidas a ministros do STF e seus familiares, mas acumula polêmicas por sua longevidade e ramificações sem fim à vista.
O documento, subscrito pelo presidente nacional da OAB, Beto Simonetti, e líderes das 27 seccionais, denuncia a “natureza perpétua” da apuração, que se arrasta há quase sete anos sem perspectiva de conclusão, contrariando princípios basilares do Direito.
Contexto de abertura e evolução da investigação
O inquérito das fake news surgiu em 14 de março de 2019, por determinação monocrática do então presidente do STF, Dias Toffoli, sem participação inicial do Ministério Público ou denúncia formal, em resposta a uma onda de desinformação nas redes sociais contra a Corte.
O ministro Alexandre de Moraes assumiu a relatoria sem sorteio eletrônico, e o caso avançou em segredo de justiça. Ao longo dos anos, ganhou dezenas de inquéritos acessórios, abrangendo desde empresários e deputados até jornalistas e ativistas digitais.
Prorrogações sucessivas permitiram operações policiais amplas, como as conduzidas pela Polícia Federal em 2020 contra apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, prisões preventivas e bloqueios de perfis em plataformas como Telegram e X (ex-Twitter).
- Instaurado de ofício para resguardar a integridade institucional do STF.
- Escopo inicial sobre fake news expandiu-se para atos antidemocráticos e vazamentos.
- Envolvidas centenas de investigados em sete anos de duração.
- Validado pelo plenário do STF em junho de 2020, por 10 votos a 1.
Motivações jurídicas da OAB para o pedido
No ofício, a OAB manifesta “profunda inquietação institucional” quanto à perpetuação de inquéritos sem prazo ou limites claros, com o inquérito das fake news servindo como exemplo paradigmático de investigação sem contornos precisos.
A entidade aponta episódios recentes, como a deflagração em fevereiro de 2026 de uma operação contra servidores da Receita Federal acusados de vazar dados sigilosos de autoridades do STF, medidas que fogem do foco original de desinformação online.
Para a OAB, essa indefinida extensão gera um clima de intimidação sobre advogados, jornalistas e cidadãos comuns, ferindo o direito à duração razoável dos processos (artigo 5º, inciso LXXVIII, da Constituição Federal) e o livre exercício profissional.
Controvérsias e críticas recorrentes
O inquérito das fake news sempre esteve no centro de debates acalorados sobre os limites do poder investigativo do STF. Juristas de diversas correntes ideológicas questionam sua legalidade, alegando violação ao sistema acusatório e risco de abusos.
Críticos argumentam que a ausência de controle externo e a acumulação de competências pelo relator criam um ambiente propício a excessos, confundindo crítica legítima com criminalidade e podendo configurar formas modernas de censura prévia.
Defensores, por outro lado, destacam a necessidade de proteção contra ameaças graves à democracia, especialmente em período de alta polarização política e disseminação acelerada de conteúdos falsos via algoritmos de redes sociais.
- Alegações de parcialidade e lawfare por opositores do STF.
- Impacto na liberdade de expressão e sigilo profissional.
- Precedente para investigações futuras sem supervisão externa.
- Equilíbrio delicado entre segurança institucional e direitos individuais.
Implicações práticas e rumos possíveis
O posicionamento da OAB pode catalisar uma revisão interna no STF, possivelmente levando a uma pauta no plenário para deliberar sobre o encerramento ou desmembramento do inquérito das fake news, transferindo remanescentes à Justiça de primeira instância.
Caso acolhido, o desfecho representaria um marco na moderação de procedimentos excepcionais, reforçando padrões de transparência e temporalidade. Recusa, contudo, agravaria tensões entre instituições e alimentaria narrativas de perpetuação de investigações seletivas.
Além da audiência solicitada com Fachin, a OAB clama por diretrizes gerais contra “inquéritos perpétuos”, visando prevenir repetições em apurações sensíveis que envolvam altas autoridades ou temas de grande repercussão pública.
Relevância para a democracia brasileira
Em um cenário de eleições recentes, com Donald Trump reeleito nos EUA e debates globais sobre regulação de plataformas digitais, o desate do inquérito das fake news no Brasil sinalizará o compromisso do Judiciário com o equilíbrio entre combate à desinformação e preservação das liberdades fundamentais.
A decisão final influenciará não só os investigados remanescentes, mas o padrão para futuras crises de informação, definindo se o STF optará por modelos colaborativos com o Legislativo e Executivo ou manterá autonomia investigativa ampla.
Essa movimentação da OAB sublinha o papel das entidades da sociedade civil na fiscalização do poder estatal, garantindo que medidas emergenciais não se transformem em rotinas que minem as bases republicanas construídas ao longo de décadas.
O episódio convida à reflexão sobre como o Brasil lida com o fenômeno das fake news em 2026: priorizando prevenção educativa e marcos regulatórios, em vez de apurações judiciais ilimitadas que podem inibir o debate público essencial à democracia.