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Ideologia

Escola pública vira cenário de embate ideológico em SP após gravação da Brasil Paralelo

Comunidade escolar de SP protesta contra uso de EMEI para filme da Brasil Paralelo que critica Paulo Freire. Prefeitura alega que autorização seguiu ritos técnicos.

19 abr 2026 - 11h39 Joice Gomes   atualizado às 11h43
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Escola pública vira cenário de embate ideológico em SP após gravação da Brasil Paralelo Manifestantes se reúnem na Praça Roosevelt em defesa da educação pública e contra a produção da Brasil Paralelo. (Imagem: gerado por IA)

A Praça Roosevelt, no coração de São Paulo, tornou-se o epicentro de um manifesto que expõe as profundas divisões ideológicas sobre os rumos da educação brasileira. No último sábado (18), uma "aula pública" reuniu professores, pais de alunos e parlamentares em frente à Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Patrícia Galvão, a Pagu, para denunciar o uso das dependências da instituição como cenário de uma produção da Brasil Paralelo.

O documentário em questão, intitulado Pedagogia do Abandono, é alvo de duras críticas por parte da comunidade escolar, que acusa a produtora de distorcer o legado de Paulo Freire, patrono da educação no país, e de difamar o ensino público. A polêmica ganhou contornos de urgência quando a direção da escola e os pais descobriram a identidade da produtora apenas na véspera das gravações, gerando um sentimento de invasão e uso indevido do patrimônio coletivo.

Na prática, o episódio levanta um debate necessário sobre os limites entre a gestão administrativa de prédios públicos e a proteção dos valores pedagógicos que essas instituições representam. O que era para ser um trâmite burocrático de filmagem transformou-se em um ato de resistência em defesa da escola democrática.

O que está por trás do uso da escola pública

A diretora da unidade, Sandra Regina Bouças, manifestou sua indignação em uma carta aberta após decidir não conceder entrevistas. Segundo o relato, a escola foi surpreendida por um termo de anuência em nome da Brasil Paralelo poucas horas antes do início dos trabalhos. Para ela, a produção parece carregar um objetivo claro: descaracterizar o ensino público para pavimentar o caminho de teses de privatização.

"Identificamos que se trata de um projeto para destruir a educação pública com identificações muito equivocadas", afirmou a diretora no documento. O temor da comunidade é que as imagens capturadas no interior da Emei sejam editadas para sustentar narrativas que atacam a própria existência do modelo de ensino que a escola defende, baseado na autonomia e no pensamento crítico.

Além da questão ideológica, o histórico da produtora pesa na balança. Colaboradores da empresa já foram réus em processos judiciais relacionados a campanhas de ódio, o que amplifica a desconfiança dos pais sobre como a imagem do ambiente escolar de seus filhos será utilizada em uma obra de caráter marcadamente político.

O que muda na prática com a autorização da Prefeitura

Do ponto de vista oficial, a Spcine, responsável pela SP Film Commission, defende que a cessão do espaço seguiu os protocolos técnicos habituais. Segundo o órgão, o pedido foi processado como qualquer outra das centenas de solicitações recebidas anualmente pela capital paulista. Para a prefeitura, a análise é logística e administrativa, não cabendo ao Estado o crivo do conteúdo editorial das produções.

Contudo, para especialistas como a professora Denise Carreira, da Faculdade de Educação da USP, essa neutralidade burocrática é perigosa. Ela argumenta que o uso de uma escola pública para atacar o pensamento de Paulo Freire é um contrassenso que enfraquece políticas sociais e raciais fundamentais. Segundo a educadora, é preciso estar atento contra o que chama de tentativa de "desmontar a escola transformadora".

O desfecho dessa mobilização sinaliza que o uso de prédios públicos para produções privadas de alto teor ideológico passará a ser monitorado com muito mais rigor pela sociedade civil. O episódio na Emei Patrícia Galvão deixa uma lição clara: a educação pública não é apenas um conjunto de paredes e salas, mas um território simbólico que a comunidade está disposta a proteger. A expectativa agora gira em torno do lançamento da obra e de como as imagens de uma escola que preza pela diversidade serão retratadas por seus críticos mais ferrenhos.

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