A bailarina Bethania Nascimento em performance que une técnica clássica e herança afro-caribenha.
(Imagem: gerado por IA)
A bailarina brasileira Bethania Nascimento F. Gomes retorna aos palcos de Nova York nesta quinta-feira (16) não apenas para mais uma apresentação, mas para ser celebrada como um símbolo vivo de resistência e excelência. Única brasileira a protagonizar o icônico balé 'O Pássaro de Fogo' pelo Dance Theatre of Harlem nos anos 2000, ela será a grande homenageada na reestreia da montagem que marcou sua carreira internacional.
Para Bethania, a pena vermelha da ave mítica que dá nome ao espetáculo nunca foi um amuleto de sorte, mas o resultado de um esforço hercúleo. Em uma trajetória que atravessa fronteiras, ela se tornou uma das apenas dez intérpretes a assumir esse papel principal em 40 anos da companhia, consolidando-se como uma referência absoluta para mulheres negras que buscam espaço no rígido universo do balé clássico.
Na prática, o impacto de sua carreira vai muito além dos aplausos em Nova York. Ao ser promovida a primeira-bailarina e viajar por mais de 20 países, Bethania escancarou as portas de um mercado que historicamente negou o protagonismo a corpos pretos e pardos, especialmente no Brasil.
O que muda na prática com esse reconhecimento internacional
Apesar do sucesso no exterior, a bailarina mantém um olhar crítico e necessário sobre a realidade brasileira. Em suas reflexões, ela questiona a ausência de representatividade nos grandes palcos nacionais, como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Para Bethania, é inaceitável que, em um país majoritariamente afrodescendente, a mulher negra ainda seja invisibilizada na dança clássica.
Sua própria história é marcada por essa exclusão. Antes de brilhar nos Estados Unidos, Bethania foi aluna de Consuelo Rios no Rio de Janeiro, mas precisou desistir de sua vaga devido às agressões racistas cotidianas. Na época, o racismo sequer era tipificado como crime no Brasil, o que forçou talentos como o dela a buscar refúgio e valorização em solo estrangeiro.
Mas o impacto de sua jornada também carrega uma profunda conexão pessoal e espiritual. A dança foi o caminho encontrado para processar o luto pela perda de sua mãe, a intelectual Maria Beatriz Nascimento, vítima de feminicídio em 1995. Bethania enxerga na figura do 'Pássaro de Fogo', que nesta versão afro-caribenha dialoga com a força da orixá Iansã, uma metáfora de renascimento após as cinzas.
O simbolismo e a herança cultural na diáspora
Diferente da versão russa tradicional, a montagem do Dance Theatre of Harlem, fundada no auge do movimento pelos direitos civis nos EUA, traz cores vibrantes e uma cenografia que reverencia a diáspora africana. Para a artista, essa conexão é essencial para reafirmar as narrativas territoriais que unem afro-americanos e brasileiros em uma mesma luta por justiça social.
Hoje, atuando como treinadora e coreógrafa internacional, Bethania Nascimento dedica-se a preservar o legado intelectual de sua mãe e a pavimentar o caminho para as próximas gerações. Sua trajetória prova que a resiliência é a ferramenta mais poderosa para transformar a dor da injustiça em arte de alcance global, garantindo que o voo do pássaro nunca seja interrompido pelo preconceito.