Como o Brasil planeja liderar o mercado de terras raras.
(Imagem: Sigma Lithium Divulgação)
O subsolo brasileiro guarda uma das maiores riquezas tecnológicas do planeta, mas o país corre contra o tempo para não repetir o erro histórico de exportar apenas matéria-prima bruta. Detentor de cerca de 25% das reservas mundiais de terras raras, minerais essenciais para a fabricação de motores de carros elétricos, turbinas eólicas e smartphones, o Brasil acaba de ganhar um roteiro estratégico detalhado para estruturar sua própria indústria de alta tecnologia até 2040.
O plano está consolidado no livro "Terras Raras no Brasil: estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026–2040", lançado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Escrita por dez especialistas de ponta, entre engenheiros e pesquisadores, a obra joga luz sobre um dilema econômico urgente: o Brasil continuará sendo um fornecedor de commodities de baixo valor agregado ou assumirá o protagonismo na transição energética global?
O que muda na prática com o novo roteiro
Na prática, o documento funciona como uma bússola para investimentos e políticas públicas de longo prazo. Em vez de simplesmente extrair e exportar os 17 elementos químicos conhecidos como terras raras para que outras nações fabriquem produtos eletrônicos avançados que depois compramos de volta, o plano propõe que o Brasil desenvolva capacidade técnica para refinar e manufaturar esses componentes em território nacional.
Mas o impacto vai muito além da soberania econômica. Atualmente, a cadeia global de suprimentos desses materiais é amplamente centralizada pela China, o que gera gargalos logísticos e tensões geopolíticas frequentes. Ao mapear depósitos estratégicos nas diversas regiões do país, inclusive na Amazônia, o estudo propõe o uso de parcerias internacionais e capital multilateral para acelerar a exploração sustentável e segura dessas jazidas.
Por que isso importa agora
E é aqui que está o ponto central: a janela de oportunidade para consolidar a transição ecológica global está se estreitando rapidamente. A liderança do CGEE alerta que o país precisa escolher se quer se contentar com o papel de exportador de minério bruto ou se vai criar as bases de uma nova e lucrativa indústria verde nacional. Embora ainda exista uma dependência tecnológica de fora, o mercado internacional também depende das reservas minerais do Brasil para conseguir atingir suas metas de descarbonização.
Para que essa transição saia do papel, o país já começa a movimentar duas frentes de ação: a regulação e a capacitação de profissionais. No Congresso Nacional, o debate ganha tração com o Projeto de Lei 2780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, em análise no Senado. Ao mesmo tempo, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) lidera a estruturação de uma rede de pós-graduação voltada para formar geólogos, engenheiros e pesquisadores altamente especializados.
O sucesso dessa estratégia determinará a relevância geopolítica brasileira nas próximas décadas. Ao alinhar políticas de incentivo fiscal, robustez jurídica e formação científica de alto nível, o país tem a chance real de transformar seu subsolo em um motor sustentável de desenvolvimento social e industrial.